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sexta-feira, 16 de novembro de 2012

As pessoas mais feias do mundo.



Eu não gosto de políticos e desengane-se quem julga concordar comigo por não lhes sobrarem motivos válidos para essa antipatia. Estou convencida que o maior motivo para o meu desagrado com os políticos se prende com a aparência. Redunda este raciocínio na seguinte intolerância: eu não gosto de políticos porque eles são feios. É só isto. Não se pense que há mais do que isto. Vivemos numa sociedade em que pensar acima disto é retroceder à espécie de Neandertal (ou assim), e eu sou, em larga medida, sapiens-sapiens.
Para que não julguem que isto é um devaneio, resultante do austero período que atravessamos, apresento-lhes a título de exemplo, um caso da minha intimidade: Havia na minha adolescência um rapaz muito giro a quem uma vez, à custa de tanto provocar proximidade, ouvi o seguinte: “um dia, serei Presidente da Câmara”. Na minha cabeça, esse rapaz passou de bestial a besta antes mesmo de pronunciar a palavra “Câmara”. Os seus olhos, onde antes distinguia apenas a cor paixão, ficaram subitamente enturvados de mate; o porte, que sempre me parecera distinto e elegante, começou um prolongado entorpecimento a partir das mãos, e onde antes se formavam sorrisos, apareceram, desde essa fatídica sentença, dentes amarelos, encavalitados uns nos outros, pendendo abusivamente por cima da mandíbula. O príncipe da minha adolescência metamorfoseara-se no mais abominável dos sapos com dentes, apenas e só por ter demonstrado uma certa inclinação para cargos políticos.
Portanto, fica provada a longevidade da minha repulsa por sujeitos políticos e fica também a descoberto uma grande mancha na minha conduta: o preconceito de imagem. Felizmente, ninguém me pode acusar de segregar minorias, porque esta espécie tem vindo a propagar-se em tão larga escala, que suportá-los é algo que fica muito acima das nossas possibilidades.
 Longe vão os tempos em que o presidente da junta era o merceeiro, que ganhava eleições distribuindo folhas de bacalhau pelo Natal, e a isso ninguém chamava suborno nem caridade, chamava-se “jeitinho”. Agora, na mesma quadra, passam pelas casas à cata de grelos e ainda pedem marmita, dizendo que é um esforço necessário para um bem comum. É comum, sim senhora, é cada vez mais comum e esse é o maior problema: a coisa normalizou-se e nós já não nos importamos: damos os grelos, a marmita e ainda lhes guardamos roupa velha para o dia seguinte.
Se ao menos isto se passasse numa terra de políticos bonitos… Mas os políticos são, de longe, as pessoas mais feias do mundo. 

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Verbum


Nos primeiros anos de vida, as palavras acontecem como uma coleção de troféus, não nossa, mas dos adultos que nos rodeiam. Não sei qual foi a minha primeira palavra e acho que os meus pais também não. Quando se é o quarto filho de um casal, julgo que o encanto que isso possa ter é coisa de somenos. Se conseguissem imaginar a importância que isto viria a ter para mim, talvez os meus pais tivessem guardado, nas paredes da nossa casa, os meus primeiros sarrabiscos de insultos à ortografia e torpes acrescentos ao português.
Mas não: bastava ser primavera para que as paredes  espelhos estilhaçados da minha rebeldia   fossem limpas, substituindo-se a luminosidade do interior de cada palavra escrita, por umas valentes pinceladas de tinta. Foi assim que se apagou o meu nome das primeiras vezes: a tinta apagava-se com tinta e o fenómeno parecia conter apenas o tamanho das mãos que compunham e ocultavam palavras.
O processo de anulação constante do trabalho realizado pelas minhas mãos duraria até ao ponto preciso em que entendi que as palavras nascem do silêncio das mãos. As mãos silenciosas são lanternas acesas, que se deslocam à frente do pensamento e que conduzem aos sonhos a que damos voz. A palavra “palavra” não fala: diz como pulsa o centro do mundo – o nosso interior – e gravitando sobre si própria acumula os milhões de tentáculos que lhe garantem a locomoção: o significado, quer dizer, o significar, porque palavra é verbo e saber que o é. É saber agir e saber estar.
Nas paredes de uma casa ou de um muro manchado com impropérios, ou de um cartaz levantado ao alto em dia de revolução, ou dos lábios cerrados de um mudo, ou da ignorância sobre as minhas primeiras palavras, até que a boca se canse e as mãos falem, há de figurar uma e outra vez, a sombra nítida do meu nome apagado: rebelião. 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Insónia


 As terras, dizia-me a minha mãe há dias, não andam boas. Ela não fala disso, porque tem vergonha, mas sabe que foram os adubos químicos que há duas ou três décadas começaram a acelerar produções dos outros, que lhe estragaram a terra. A terra precisa de mãos e de suor, a minha mãe sempre soube disso, por muito que a tenham tentado convencer do contrário, e nunca se iludiu: as mãos sempre lhe foram de serventia e o suor que diariamente lhe descia pelo rosto e lhe chegava aos lábios nunca lhe foi doce. Durante toda a minha vida tive a romântica sensação de que os meus pais dormiam pouco, mas sonhavam. Agora dormem seguramente mais, mas sonham menos. Só que isso, penso, faz parte dos ofícios do tempo.
Felizmente para eles e infelizmente para Portugal, os meus pais não são nem um estereótipo nem um arquétipo do povo. O povo nem dorme nem sonha. Anda tão tenso quanto teso, sofre de insónias. Indigna-se torpemente, quando lhe mandam, em frente a um ecrã plano ou em praças cheias; nas redes sociais, vomita vilipêndios contra o neoliberalismo, o socialismo, o comunismo, o fascismo e ismo, ismos, ismos, que se confundem a todos e lhe esmifram o pão e a paciência, mas que lhe dão a ilusão da participação. E numa busca pela clarividência embriagam-se em definições que se hão de fazer em pó, sem que ninguém se dê conta e sem que ninguém seja ouvido. Os fazedores dos ismos (os mesmos que há muito apenas ouvem a voz estatística do povo) lançaram sobre nós adubos químicos: puseram-nos a produzir oratória abundante, formaram livres-pensadores (poucos), eruditos (menos ainda), e batalhões vorazes de verborreicos estrategas que, de tanto se levarem a sério, se convenceram que a vida é um produto dos seus próprios pensamentos e (pior que isso!) fazem o povo acreditar que são eles os paladinos da razão.
Todos sem exceção nos esquecemos disto, que a minha mãe na sua sabedoria telúrica tão bem organiza: a vida é mãos e terra nas mãos com suor ao lado. Para acordar é preciso dormir descansado. E para sonhar.
O povo português nem dorme nem sonha. E eu caminho enredada neste pesadelo, sem verdadeiramente dormir, sem verdadeiramente acordar. Mas a acreditar que sonhar não é apenas o produto de um impercetível transtorno disfémico.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Mais do mesmo


 Não me cabe na cabeça que haja alguém satisfeito com o que se está a passar no meu país. Estávamos todos cá, antes do dia 15, mas nesse dia, todos vimos que despertar quem não está é possível. Muitos estivemos na rua em protesto, uns de cabeça mais perdida do que outros. Conheço gente que nunca esteve tão bem financeiramente e que estava lá também. Já não é verdade que só reclamamos quando nos vão ao bolso, já há consciência política e solidariedade e uma vontade de nação. A coisa cresce, finalmente, Abril chegou à vida adulta.
Não é preciso ser-se um génio para tirar conclusões sobre a insatisfação geral. Os génios fazem falta, isso sim, para nos tirar da situação em que nos encontramos. Levou-nos muito tempo para percebermos o que representa a representatividade política e não sabemos em quem confiar, mas sabemos já bastante bem em quem não se pode confiar.
 A vontade com que muita gente se julga salvar numa economia paralela não é apenas o exercício do “salve-se quem puder” é, isso sim, a prova de um profundo descrédito nas instituições. Ou alguém acredita que são apenas os bandidos, os facínoras, os políticos corruptos, os criminosos e os Xicos espertos que a fomentam? Pois digo-vos que há nisto muita gente honesta e que já todos os conceitos valem o seu oposto. E que tudo isto é desolador.
 Num cenário (pouco provável em meu torpe entender) de dissolução de parlamento e convocação de eleições antecipadas, será este Abril adulto digno da sua maturidade? Será capaz de, finalmente, saber fazer-se representar com dignidade e coerência? Ou irá continuar a lançar votos “seguros”, escondendo-se cobardemente atrás da esgotadíssima alternância democrática?
Há muito que deixei de acreditar. Há muito que o meu voto é branco. Se me voltarem a chamar, eu vou, mas, como nas últimas vezes, vou sem fé. Talvez só mais consciente do que aqueles que escolhem mais do mesmo.

terça-feira, 8 de maio de 2012

intimidades de um anfíbio


 As pessoas que escrevem, escrevem sempre. Até quando lhes parece que o sangue não lhes corre nas veias, agem e sentem como répteis, a temperatura do corpo adapta-se à temperatura ambiente. O escritor foi buscar isso aos répteis: adapta-se às circunstâncias, porque sabe que o valor das palavras que conhece hoje é diferente amanhã, e a sua busca de entendimento do mundo está nas palavras. É preciso procurá-las.
A morte não é a pior coisa que nos acontece. As pessoas sabem muito bem que é assim.
Há nove meses, andava eu já mais esquecida do medo, por causa da besta negra que invadira a Luísa, e perco o Luís, aquele que me dava a maior garantia de que a morte estava longe e não vinha já. Vejo pessoas a escreverem logo a seguir ou durante as suas perdas e isso impressiona-me. Eu também o fiz, mas em certa medida obriguei-me a fazê-lo. A minha querida irmã, com outro sangue a correr-lhe nas veias e a uma nova fauna intersticial, também se pôs logo a trabalhar, pôs-se a andar na rua sem sentir as pernas e elas a levarem-na por caminhos e a passarem pelas pessoas, sem quebrarem, sem a deixarem cair. Os amigos do Luís soltaram as palavras que tinham dentro e isso também os foi mantendo de pé. Mostraram-se todos, sem saberem que o vemos nos rostos deles sempre que os encontramos e que isso nos dói, e que isso nos lava um pouco por dentro.
 Ando há nove meses furiosa com tudo e também com as palavras (bastante mais com as palavras que, afinal, não chegam para apaziguar coisa nenhuma). E ontem, no dia da mãe, quando me pus a ler um texto, que ando a escrever há já mais tempo que a evidência desta coisa muito feia que nos aconteceu, gostei tão pouco, que pensei: E se fosse mãe, poderia não gostar do meu filho? – Não sei. Talvez nunca saiba. Amar é uma opção e há muitas mães que optam por não amar. São, aliás, mais as que optam por não amar do que as que admitem não gostar. Talvez a vida fosse melhor se muitas mães admitissem não gostar dos seus filhos e seguissem, ainda assim, na sua opção de os amar.
Nove meses é normalmente um tempo bom, traz-nos memórias fecundas e doces. Nasceu uma criança (outras também, mas eu quero referir-me a esta), a Paula ficou grávida (outras mulheres engravidaram, mas eu quero referir-me a esta), o tempo continuou a gerar vida (e continuou a gerar morte, mas eu quero referir-me à vida). Ainda assim, estes nove meses foram um tempo mau.
Não gostei do texto ontem, provavelmente hoje já gosto mais e, até decidir que está acabado, irei continuar a promover o seu crescimento, conforme considerar justo. Livros não são filhos! Podemos acabá-los ou não, podemos ignorá-los e esquecê-los, rasgá-los ou apagá-los e até mostrá-los. Mas livros não são filhos, não senhor! – As pessoas sabem muito bem que é assim.
A morte não é a pior coisa que nos acontece – as pessoas sabem muito bem que é assim. – Mas a mim é. Quem escreve, escreve sempre. – Mas eu não. Eu ainda não aprendi nada com os répteis, e muito pouco com os peixes. 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Zurück bleiben, bitte!

Guardo esta frase, como uma das mais marcantes da língua alemã. Devo tê-la ouvido uma vez por cada dia que passei em Berlim. E isto não equivale a dizer que a tenha ouvido todos os dias, pois foram muitos os dias de temperaturas impraticáveis para a minha descida à rua, e muitos outros em que saía a pé ou de bicicleta, por isso, não usava o metro e não ouvia aquelas palavras.

A frase significa, algo como : “afaste-se, por favor” e é dita quando as portas do comboio se abrem para a entrada e saída de pessoas. (Coisas de cidades grandes). Sem perceber muito bem porquê, sempre me causou uma certa angústia. Agora, à distância, penso que percebo esse sentimento e que a minha primeira perceção desse enunciado era, afinal, a mais correta. “Zurück” significa “atrás” e “bleiben” ,“permanecer”. Quando ouvi aquela frase pela primeira vez, o conhecimento tacanho que tenho da língua alemã, pôs-se a fazer uma tradução literal da frase: “permaneça atrás, por favor”.

Nos últimos dias, esta frase e o irreprimível frémito de medo que me causava voltou a ecoar na minha cabeça. Sempre que Angela Merkel se refere ou se dirige aos gregos, é isto que oiço: “Zurück bleiben, bitte”, quando Vítor Gaspar se ajoelhou em frente ao seu homólogo alemão, Wolfgang Schaube, o que eu o ouvi dizer foi “zurück bleiben, bitte”, quando o “milagre económico alemão” é destacado do resto dos países europeus, através das demagógicas taxas de desemprego (que escondem, por exemplo, sete milhões de trabalhadores precários), o que eu oiço é isto: “Zurück bleiben, bitte”, quando vou ao multibanco, o bonequinho verde não sorri e diz “Zurück bleiben, bitte”, quando saio à rua e penso fazer qualquer coisa mais do que sair à rua, as ruas gritam: “zurück bleiben, bitte”...

De tanto ouvir isto, a minha mente vai ficando acamada nesse espaço remoto, onde já quase nada se alcança. E tenho medo, muito medo de permanecer atrás, como me tem sido indicado.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Pequeno incentivo de abate à inércia

São onze da manhã de um dia qualquer e eu sinto-me bem. Isto é uma advertência a quem possa duvidar do meu estado emocional. Sinto-me bem e tenho consciência disso. É inoportuno sugerir que se não tivesse consciência me sentiria ainda melhor. É ineficaz argumentar que mais vale não saber, não querer saber, não me doer, não me ofender, porque quem não se sente não é de boa gente, e eu sou.

Sinto-me bem porque vivo num país de promessas muito bem desenhadas, que se estava mesmo a ver que eram só promessas, num país feito para ser desfeiteado, mas que nem isso conseguiu fazer sem ajuda externa. Tudo muito bem delimitadinho há séculos, pelas suas fronteiras (arte suprema deste país: a cartografia que se exibe em museus e que não serve para nada, a não ser pôr-nos a sonhar com aquilo que já lá vai!), aqui nos encontramos em pleno exercício de convulsões de uma doença grave: a esperança no futuro. E sabendo que, logo que acabe a febre, nascerá uma outra bem pior: a falta de crédito no presente. Sim, é isto o futuro. Não me venham visionários dizer que é para além disso, que eu arremesso-lhes com um tsunami (mar para isso não nos falta e, se lhe dá para se revoltar, acaba de vez com isto e pronto. Fica a batata quente bem entregue, alastra este mal Europa acima e ficam os espanhóis com os louros de serem finalmente a irredutível cauda deste continente com a puta da mania da responsabilidade e inviolável conduta, de espezinhar e segregar todos quantos não se entendem na riqueza especulativa dos mercados do nada da variação do spread, que é ilusória, tudo muito bem, mas quem é que disse que a ilusão não alimenta?! Ah?!

– E já agora, quem é que diz que alimenta? Ah?!

– Dominique quê?! – Strauss?!, Angela Merkel?, Nikolai Sarkozi?, Timo Soini?, George Osborne (o tal que acusa Sócrates de se ter importado demasiado com o seu quintal, mal sabendo que não havia nisto metáfora alguma!), José Sócrates?! – mas quem é esta gente? - Uma corja de fazer corar os Bórgias, mas que em menos de duas décadas ninguém saberá quem são, porque tão habituados estão a foder mal, que se esquecem que isso implica prazer e que até para se ter prazer é preciso ter talento, e neste conceito particular todos possuem apenas a variante da antiga moeda de ouro dos gregos e romanos: têm montes de talento nos bolsos e nenhuma aptidão natural ou adquirida para o êxito desta palhaçada toda que se chama Europa!

Por mim, colocavam-se todos em filinha, à frente do senhor Strauss (que ao deboche nunca se negaria!) num exercício desajeitado de sodomia (Merkel incluída, nesta bicha, munida de todos os seus argumentos de aço e arame farpado para que arranhe bem, de preferência o cu do Sarkozy, até que o sangue escorra e se afogue nele!), a ver se finalmente percebem como fodem mal, como são tristes por estarem tão condenados à indiferença da história! Vão com sorte se a imortalidade lhes chegar por aqui, por esta execrável imagem de depravação, que é o que eles merecem e é por isso que se batem, quando dizem que se batem por alguma coisa!

E tu, que ainda aí estás a acabar o teu riso, a tua estupefacção, a tua indignação de pessoa de bem, muito educadinha, que até vestiu o fato de domingo… Para quê, ah?! – Para te pores também na fila?! – Ah, mas a ti, ninguém te toma por lorpa, meu grande espertalhão! Mostras preferências requintadas, não é qualquer posição que te serve, dás o golpe na fila, empurrando uma ou duas figuras que lá apareceram à socapa, até fazes um rap com isso: Lino Pino Lino Pino, e zás! – enfias-te mesmo à frente do Sócrates, porque já lhe conheces o jeito para te enrabar, não é meu mandrião? Pois é, há que jogar pelo seguro, que nós aqui somos todos gente honrada e respeitadora e nunca atrás vem melhor. Pois não, meu calaceiro, atrás não vem melhor porque atrás está o MESMO, ou a sua CÓPIA (ou ainda não estás a reconhecer o órgão que te põe a ranger de dor, sua porta de aldrabas velhas!? Será que o queres mais dentro?).

– Queres que te diga? – Ficas bem nessa fila, no teu fatinho impecável com as calças descidas até aos calcanhares

– Não sabias, ao menos, segurá-las nos joelhos, meu concupiscente assanhado!? – Ficas tão bem tu aí, como eu aqui, a ver-te entrar nela de peito erguido, cheio de ti, preparadinho para encher ainda mais! Anda lá, entra nessa, que eu vejo e continuo a sentir-me bem!

Olha lá para mim a sentir-me bem por tu estares aí e eu a ter o que dizer de ti! Olha como eu gosto de deixar aberta a torneira da malvadez e de te regar até que te afogues ou dês aos bracinhos e às perninhas! – A escolha é tua! Tu é que sabes! – O meu trabalhinho é este. Faço-o melhor que sei, vê bem, o melhor que sei é isto! E não, não li Sade, ainda não! E sabes porquê?! Porque para te ver a ser enrabado consecutiva e continuamente não preciso da literatura para nada! Preciso é de olhinhos e esses, bem ou mal, ainda te conseguem ver, mas só até ao dia em que não te suportem ver, meu código de barras desfocado!

Mas tu não és eu! Tu precisas de literatura e de livros que te encham a barriguinha do pensar, do bem pensar! E vê lá, não te distraias! Os livros andam a ser abatidos! – Ai não sabias?! Não sabias que numa das pinocadas destes senhores que nos governam (só podem fazer aquilo distraídos ou a gente muito distraída), saiu uma lei de incentivo ao abate ao livro?! – Não, não é de carros, isso ainda é complicado, que eu já tentei e não deu. É de livros! Livros abatidos por senhores que os mandam fazer e, depois, fazem de tudo para se desfazerem deles. Quanto mais rápido melhor, quanto menos pessoas souberem da sua existência, melhor! Por isso, vê lá, vai a correr a uma livraria e pilha tudo quanto puderes! – Caros?! Se são caros, por que os abatem? Por que não os dão ao desbarato? Já que não dão pão, ao menos livros, que parece que neste país de pançudos, pão não há, mas no mesmo país de iletrados, os livros são uma praga digna de erradicação!

É, sem dúvida, um país de génios! Esquecemo-nos é que os génios também têm fome! Mas não te preocupes, que eles explicam-te tudo direitinho, explicam-te, outra vez que isto é o mercado, que isto é a economia a funcionar e tu envergonhas-te, coras, por não saberes nada de economia, e voltas para a tua filinha a dar-lhes razão!

– Olha que, o verdadeiro brilhantismo deles não é porem-te na fila, é que TU te ponhas lá de livre e espontânea vontade e dês o cuzinho uma e outra vez até que ele desista dessa mania da escatologia e que seja por aí que TU começas a pensar: pelo fim!

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Também tenho o meu manifestozinho de bolso

A vida corre-me de feição. Tenho as faces rosadas porque estive ao sol e porque é meu, um pedaço de terra, onde alguém plantou couves, batatas, morangos, alface e outras coisas com cor, que me hão-de saber bem tanto a uma segunda-feira à noite como num almoço de domingo (porque eu ainda almoço aos domingos). A vida corre-me de feição porque sei a temperatura da terra, quando os meus pés descalços lá poisam e não se festeja coisa nenhuma. Só se está ali com os pés na terra, porque há que mondar as ervas inconvenientes. Sou feliz porque aprendi isto: o verde das ervas não é todo igual, lá porque as ervas são ervas e não temos a sabedoria de as distinguir pelo nome. Mas um conhecimento que nos chegou pelo suor, coloca-nos a separar sabiamente as ervas daninhas das outras.

A vida corre-me de feição porque sei coisas simples como esta: se o escaravelho pegar firme no batatal não há troika que lhe valha (não, não se reúnem três vizinhos caridosos para distribuírem a sua colheita boa pelo meu infortúnio natural, até porque sendo o infortúnio natural, o mais provável é que os vizinhos não estejam em melhores lençóis, e se afirmam que estão, mentem). O que se pode fazer é aproveitar pacientemente o que há de bom, sabendo de antemão que o que se vai revolver da terra é maioritariamente podridão e vácuo, e que tanto uma coisa como outra exalam odores pestilentos. Há que plantar de novo, há que cuidar de novo, há que estar atento de novo, há que colher de novo, sabendo que a colheita pode não ser farta, mas terá que chegar.

Estar perto da terra tira-nos, em certa medida, a sensação de alarme. É, por isso, natural que a nação esteja alarmada: fugiu da terra, escarneceu da sua riqueza telúrica, empinocou-se de podridão e alimentou-se de vácuo, e foi de tal forma insensível, que nem o fedor, que o vento sempre acarretou, lhe aflorou as narinas.

A vida corre-me de feição. Aprendi a semear palavras num papel branco, como quem planta batatas: sabendo que, independentemente da posição em que se coloque na terra, ela há-de procurar e encontrar a luz.

A vida corre-me de feição porque, em termos de escrita, eu ainda não cheguei a rama de batata, ainda não me incomodou o escaravelho, ainda não me bateram vizinhos vaidosos à porta, escarnecendo do meu (des)mérito. Mas eu de batatas sei pouco. A minha especialidade são os tremoços, que, como alguém me dizia hoje, não se percebe o que tenham a menos que a trufa. E não, não se percebe.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Conto de Natal # par

A menina cujos lábios eram sombras adormeceu.

Passou-se o tempo, no seu sono, e com o tempo, pessoas, lugares onde foram inscritos factos, e corações se estilhaçaram.

“Um dia, acordarei”, pensou, antes da preparação metódica da hibernação. “Acordarei, quando o sol tiver a força de aquecer os corações”

Passou-se o frio, no seu sono, e com o frio, pessoas deram abraços, lugares onde se reuniram e interceptaram estilhaços, promessas foram cumpridas, outras adiadas.

“Um dia, acordarei”, inscreveu no lugar cimeiro da lista prioritária de sonhos. “Acordarei, sobre a memória vazia da dor”.

Passou-se a dor, no seu sono, e com a dor, foram-se as pessoas, os lugares ermos da sua memória, as cicatrizes de outros órgãos vitais, outrora estilhaçados.

“Um dia, acordarei”, trauteou na melodia mais bela da sua infância. “Acordarei ao som da mais bela música jamais imaginada”.

Passou-se a música, no seu sono, e com a música, pessoas calaram, vozes intumesceram lugares desertos, versos com veneno apagaram os seus sonhos…

A menina cujos lábios eram sombras acordou, finalmente, numa noite fria de Inverno, olhos cerrados sobre incompreensão destas palavras:

It takes two to climb the mountain

Only one to make its way down.

A menina cujos lábios eram sombras quis gritar, quis subir a montanha… mas agora, depois de terminado o seu imperioso sono, deu-se conta de que os seus lábios sombra eram o espelho de outros lábios que a impediam de falar, de gritar, de beijar. E ali, na parte mais funda da montanha, percebeu os versos do seu despertar:

It takes two to climb the mountain

Only one to make its way down.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Coisa verde

Íamos todos quantos fossemos juntos, por esses dias. Muníamo-nos de cestos, baldes ou pequenos sacos de plástico, pás, enxadas, ou tudo o que fosse digno de mostrar serviço. Era a operação de maior responsabilidade de toda a composição do presépio, por isso, havia sempre um adulto por perto - normalmente, era o nosso tio mais cool (palavra e conceito que, à altura, desconhecíamos, mas que agora, coisas bem vistas, define o meu tio mais novo, que usava barba ou bigode de abas ao alto, boina camuflada e tinha uma colecção de cassetes com cânticos alentejanos, sendo, por isso, entre sussurros e cochichos de velhos e velhas reaccionários (ou simplesmente ignorantes), o maior comunista das redondezas).

Suponhamos que chovia (porque de todas as memórias que me ocorrem, efectivamente, chovia), e se assim fosse, era sabido que os sacos de plástico seriam cortados ao meio e cada um o enfiava na cabeça, a servir de capa. Ríamo-nos todos do meu tio, porque ele só cobria a cabeça, enquanto nós ficávamos protegidos até meio da perna, mais ou menos. Eventualmente, chegávamos à mata de pinheiros, carvalhos e muitos penedos cobertos de musgo. Corríamos a escolher o maior e começávamos a despi-los, lentamente, de forma a que as largas camadas saíssem o mais amplas e homogéneas possível. A chuva caía e enrugava-nos os dedos miúdos, mas o nosso entusiasmo não diminuía, por causa disso.

As camadas de musgo verde e pesado sobrepunham-se, primeiro nos recipientes mais largos, que o tio Zé carregaria, ficando os torrões mais desfeitos para os nossos recipientes, que eram muito mais pequenos e desinteressantes. No regresso a casa, todos conseguíamos antecipar a qualidade das planícies e montanhas que aquela colheita de musgo iria proporcionar ao presépio desse ano. E ninguém tinha dúvidas que esse seria o melhor de sempre!

Há dias, passava ao largo de um mercado em Braga e reparei numa vendedeira, sentada atrás de uns pequenos recipientes cheios de... uma coisa verde. Como conduzia, perguntei à pessoa que ia ao meu lado que me confirmasse, se aquilo era musgo. O tom inexpressivo com que ela disse: “sim, é”, levou-me a camuflar o meu espanto com a normalidade do diálogo: “ E como o vendem?”; e ela: “ ao quilo”. E eu, que me lembrei do meu tio comunista e do cheiro da terra que o musgo levanta, e da pedra nua que a chuva tornaria mais limpa, e do cheiro dos pinheiros e de como escorregávamos na garvalha (que fora do Minho é caruma, mas com outro cheiro), eu que me lembrei que o meu Natal não é meu: é nosso. Eu, que sei que esta pluralidade vem do fundo do tempo (do meu tempo), estiquei o sorriso de incompreensão ao cúmulo da gargalhada e disse, como se tivesse toda a sabedoria do mundo reunida no peito: “mas… não é assim que se colhe o musgo”.

Não adianta de muito descrever o rosto ignorante da minha amiga, porque no meio do seu silêncio estupefacto, percebia-se, que nunca lhe ocorrera, que o musgo, como todas as coisas que nos tornam felizes, também se colhe. Sinto que lhe devo estas memórias de infância, que é onde se reúne toda a sabedoria do mundo ou onde se aprende a colheita da felicidade.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Isto parece-me ridículo


Parecem-me ridículos todos “os dias burocráticos” e este “modo funcionário de viver”, parece-me ridículo isto que, ao grande O’Nei,l também parecia. Isto da “vírgula maníaca”, isto do fingir que somos, que estamos integrados, que obedecemos, que cumprimos critérios de qualidade, que alguém lá longe definiu.

Parece-me ridículo isto de amanhar informação por tamanho de letra, por espaço entre linhas, por parágrafos tirados à régua, por títulos às cores. Parecem-me ridículas as formatações, porque ninguém vê, nem faz para além desse desenho quadrado visível a olho nu. Esse olhar desnudado e acrítico que nos vigia (com esmero excessivo e incalculável mesquinhez!) a forma, e ignora o conteúdo. Que gosta de nós vazios, que nos torna peões sem rumo e sem vontade, que nos torna escudos nos seus extensos campos de batalha pela incompetência, pela corrupção e pelo caciquismo.

Parece-me ridículo que esta região da Europa não perceba que, em termos económicos, é apenas isso: uma região na Europa. Um pedaço quase invisível. Parece-me ridículo que nos consigamos indignar e protestar pela defesa dessa região (e da sua irrecuperável glória económica), mas que poucos se batam por aquilo que ainda nos define como país: o nosso património cultural, a nossa língua, os nossos museus vazios, o nosso património arqueológico abandonado, a nossa gastronomia com tiques histéricos no controle de qualidade, os nossos artistas plásticos, os nossos artesãos tristes e abandonados, os nossos pescadores sem rede (mas com tanto mar!), os nossos campos agrícolas abandonados, o nosso turismo a prometer desde a altura em que aqui há sol (e tanto mar!). Parece-me isto ridículo e nem preciso de conhecer o documento do orçamento geral do estado, para saber que os cortes são em tudo isto que nos define, enquanto país, porque alguém insiste nessa importância de sermos uma região económica e insignificante da Europa, em detrimento de sermos um país.

Parece-me ridículo que a nossa noção global de riqueza esteja centrada na força dos nossos credores, que são entidades amorfas, abstractas, virtuais; e que tenhamos perdido a verdadeira noção dos factores geradores de riqueza.

Hoje aconteceu-me acordar com o arrepio desta evidência: eu não estou a crédito, nem sou um pedaço de papel formatado. Por isso, quando uma entidade para a qual presto serviços de formação me enviou devolvido (pela enésima vez) um documento de incontornável importância para a realização das minhas tarefas, “por não concordância da formatação do tamanho de letra”, eu respondi, apenas, assim:

“Isso parece-me ridículo”.

Só gostava de ter enviado essa resposta em correio postal.

domingo, 5 de setembro de 2010

As famílias gritam

Todas as famílias gritam, mas há umas que gritam mais do que outras.
Eu estava convencida que nenhuma família fazia mais banzé do que a minha, quando chegava agosto e as reuniões, a pretexto de sardinhada, se sucediam umas às outras numa inebriante dança de sorrisos e abraços à chegada e à partida. Entre essa dança bem definida, outras modas se coreografavam, normalmente ao ritmo de vozes esganiçadas, irritadiças, impacientes e abertas, demasiadamente abertas para o meu gosto.
Eu estava convencida que ninguém se irritava mais do que eu, quando todos falavam em simultâneo e eu, que abominava isso, falava também em tom demasiado elevado, aproveitando para atropelar pessoas (do meu sangue ou não) com todo o destempero que conseguisse reunir na voz. Ano após ano, encontro após encontro, eu prometia a mim mesma em silêncio, que não voltaria a compactuar com esse tipo de comportamento. E este Verão não foi diferente: lá estive em lugar conhecido a prometer a mim mesma não voltar a falar tão alto, não voltar a indignar-me com opiniões, gostos e valores que ficam de outro lado daquilo que defendo, gosto e pratico. Para o ano cá estará, certamente, a minha alma veraneante com os mesmos sentimentos, as mesmas sensações, as mesmas irritações e (oxalá!) a mesma família.
Falo do Verão porque, como somos mais, estamos de férias e há poucas inquietações, a profusão de conversas é acentuadamente maior e normalmente mais desprendida; mas isto é sentimento que me acompanha o ano todo, a vida toda. Isto, pensava eu, só se passava na minha família, facto que me causava um certo incómodo.
Estes dias, de repente, dei por mim em aturada observação ao comportamento de outras famílias e foi com alguma surpresa que senti aquela vergonha que normalmente se sente por coisas que não nos dizem diretamente respeito, e aí percebi que o incómodo que eu sentia, era na verdade essa vergonha que, ao observar comportamentos em tudo idênticos aos da minha família, tão espontaneamente se definiu no meu corpo.
Foi fácil concluir que, no seio familiar, grande parte das conversas ocorrem entre gritos e atropelos e que é precisamente isso que se pretende: que ninguém oiça ninguém, e todos reclamem o seu momento para falar, opinar, barafustar, para fazer pedidos ou revelações, mas mantendo sempre de reserva essa fé de que ninguém nos esteja verdadeiramente a ouvir…
Quando queremos, de facto, ouvir e ser ouvidos temos amigos a quem recorrer e podemos aí fazer uso das regras de boa educação que nos foram incutidas algures na infância. De forma proverbial sabemos bem que quando um burro fala o outro baixa as orelhas e sabemos o significado disto, porque no-lo ensinaram algumas dessas pessoas que aos domingos de agosto, ao juntarem-se em churrascos e sardinhadas parecem uma cena violenta de um filme (uma daquelas em que fechamos os olhos, encolhemos o corpo e pomos as mãos nos ouvidos). Às vezes, é isto mesmo que me apetece fazer e, em muitas imagens que guardo só para mim, é isso mesmo que faço. Há de ser isso que outros fazem também.
Não sei.
Sei que este espaço, onde me acolhem sempre, tem a capacidade bruta de me receber em vísceras como nenhum outro. Talvez seja por isso que, ano após ano, também eu seguro as suas. Talvez seja por isso que não me envergonho de continuar a fazer promessas que nunca cumprirei e para a próxima cá estarei com tudo de bom e mau que o meu interior conseguir expelir. Sei que todos farão o mesmo. E essa estranha contradição do amor que tanto compreende como ofende continuará a fazer muito por estas mãos paradoxais.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Marco Fortes


O senhor que leva este nome é forte. Olhando-se para ele percebe-se bem o que quero dizer. Enquanto escrevo qualquer coisa (que ainda não sei o que será) não o vejo, mas oiço a sua voz calma, delicada, transparente e lúcida, escolhendo cuidadosamente as palavras, não venha o acaso pô-lo a proferir enormidades, decalcando-lhe ainda mais a imagem de incauto, inconsequente e preguiçoso, que inesperadamente o celebrizou. Entenda-se por celebridade, qualquer figura que, em contexto de silly season, consegue a proeza de abrir os noticiários nacionais por uma ou duas ocasiões e mais de 5000 visualizações da sua imagem no youtube.
Por esta altura, já há quem saiba de quem falo, mas seguramente, a grande maioria não associa o nome do atleta olímpico de lançamento do peso, que de manhã só está bem é “na caminha” ao nome que dá o título a este texto. Outros tantos, pensarão que, depois de tão longa ausência por este blogue, eu própria terei andado a tratar de estabelecer mínimos para uma qualquer categoria olímpica ainda inexistente. Mas não. Desenganem-se!
Uma das razões por que tenho estado caladinha é porque a silly season consegue pôr qualquer um a dizer e a fazer os maiores disparates, e eu, que já tenho uma natural propensão para o fazer, resolvi acautelar-me, ficar na retaguarda e passar ao lado dos três grandes acontecimentos deste Verão: a escarradela de Cristiano Ronaldo, a escorregadela de Carlos Queiroz e a quase dizimação da minha terra, através dos fogos. Aliás, no preciso momento em que escrevo, caem-me faúlhas no cabelo e eu deixo-me estar, até porque o ministro da administração interna já veio assegurar que a época de fogos este ano foi muito melhor do que a dos anos transatos. Eu, por mim, vejo-me tentada a considerá-la explosiva! E a culpa é do Ronaldo, que afinal não explodiu no mundial e arranjou modo e maneira de incendiar o país. Mais coisa, menos coisa, resume-se, então, a isto, o Verão de 2010, com os três elementos essenciais a intercetarem-se com grande naturalidade.
Então, e a escorregadela do Queiroz? – Ah, isso, foi por culpa de um bombeiro, que deixou uma mangueira mal colocada ali como quem vai apagar um fogo no Soajo. Por isso, encaixa tudo no mesmo conceito.
Eu sei que há momentos em que se está bem é caladinha, mas já me ardiam as pontas dos dedos.
Continuem a curtir o Verão na praia, na montanha, nas lagoas do rio vez ou, se for caso disso, na caminha...

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Eyjafjallajökull nos abençoe

Acordava quando ouvia passos que faziam ranger o soalho e sentia o odor de cevada acabada de fazer. Ninguém chamava o meu nome. Levantava-me como quem já tinha saudades de ver gente, mas esgueirava-me para a casa de banho, a trouxe-mouxe, na esperança de não encontrar nenhum dos adultos, antes do inevitável alívio matinal. Nunca o disse a ninguém, mas aquilo de pedir a bênção, antes de fazer o primeiro chichi, não me caía bem. Não que aquilo representasse o que eles queriam que aquilo representasse, se é que eles percebiam a representação do gesto. Se encontrava o meu avô no corredor, jamais me poderia fazer de impedida: ele articulava-se em estátua e esculpia no rosto as rugas de uma severidade inultrapassável. Eu fingia que o que dizia, quando lhe pedia a bênção, era “bom dia”, esperava que ele me depositasse a mão pesada na cabeça e no seu lacónico “Deus te abençoe” (nunca o disse a ninguém!) sentia o dia romper.

A minha educação está cheia de silêncios transformados e entusiasmos abafados. Sempre ouvi mais, muito mais, do que falei. Ainda hoje vivo assim: num indecifrável limbo de tolerância, paciência e silêncio.

Sei que ninguém mo proporá, mas se me fosse dado o desafio de me apartar da minha formação religiosa católica profunda, tenho a certeza que aquilo que sou hoje ficaria irremediavelmente fragilizado. À cabeça dessa fragilidade, não tenho dúvidas em colocar o sem número de exercícios diários que me consumiam, mas também construíam a paciência. A saber: Acordar cedo para ir para a escola, ou acordar cedo para ir para o campo, ou acordar cedo para ir à missa, ou acordar cedo para ir à catequese, ou acordar cedo para ir levar o leite ao posto do leite, ou acordar cedo para ordenhar as vacas, ou acordar cedo ao sabor de hóstias bafientas, ou acordar cedo porque isso era uma coisa normal de se fazer e não havia nada que interessasse que me permitisse ficar na cama, a não ser a vontade ou o cansaço, ou esse facto peripatético de me fazer criança. As alvoradas eram obrigatórias e nunca me agradavam: “paciência!”, diziam eles, “tem que ser”.

Ora, era essencialmente neste ponto que a paciência se esgotava e era aí que eu tinha um dos meus momentos, em que me ensinaram as dialécticas Obediência/Desobediência; Medo/Atrevimento e Culpa/Pecado, tudo pilares maiores da formação católica, e grosso modo exemplos soberbos de toda uma gigantesca lógica de hipocrisia, onde assenta, na verdade, a lógica das religiões, e por arrastamento grande parte da lógica e dos valores sociais, que vão imperando um pouco em todas as culturas. Felizmente, consegui, a muito custo, transformar esses conceitos, reciclando-os em ideias sustentáveis e vivas: Ouvir com rebeldia; Respeitar com ideias próprias; Tolerar integrando.

Tenho dificuldades em explicar por que não abomino toda a minha formação católica, tamanha é a sua falta de coerência. Mas a verdade é que apesar de me terem impingido insistentemente o conceito de culpa, melhor do que qualquer outro, não me sinto culpada, nem com poder de culpar. E sinto-me ainda mais impotente para o fazer, quando olho para a actualidade e verifico a enorme agitação social que vive o nosso país, em torno desta lista de acontecimentos: o Benfica ganhou um campeonato de futebol e o papa está de visita oficial ao nosso país; O Benfica é campeão e o papa anda de papa-móvel. O Benfica visitou o papa e o papa escreveu uma frase num livro. O Benfica quer ser campeão para o ano e o papa vai a Fátima à manha (no dizer do próprio); Os adeptos do Benfica inundaram o Marquês e os fervorosos seguidores do papa são também adeptos do Benfica e inundaram a Praça do Comércio; Jesus guiou o Benfica à vitória e o papa tem um motorista que o guia no papa-móvel, apesar disso, o papa lidera o campeonato de feriados excepcionais e leva um ponto de avanço sobre o Benfica.

Mesmo que quisesse (e soubesse) falar de finanças ou de economia e educação ninguém me iria prestar atenção. Por isso, a listagem de acontecimentos relevantes para o país esgota-se aqui. E não me censurem, que eu bem sei que há por aí muito boa gente dita laica e ateia a aprender a rezar para que o eyjafjallajökull nos abençoe, isolando-nos com o seu desassossego e nos mantenha esta chama ardente na fé ou no Benfica. Tanto faz.

domingo, 25 de abril de 2010

Bom dia, Liberdade!

Olhavam para o sol e viam-no nascer todas as manhãs. Viam como a luz incidia sobre as coisas e as iluminava e pensavam, sempre pensaram, que estava tudo bem, que estavam a ver. Primaveras e Verões sucederam-se com o sol a ser mais do que rei. A ser pai, mãe e alimento, a ser conforto para os pés descalços, a ser o único abraço e o único mimo de crianças muito tristes, que não sabiam ainda que eram tristes, não sabiam ainda sorrir. Crianças que confundiam o gesto de um mimo com o de um bofetão e que se afastavam, que andavam sempre a afastar-se, andavam ao lado umas das outras com medo de se tocarem, andavam ao lado de si mesmas, sem se olharem. Sabiam que havia luz e que isso era bom porque não tropeçavam nas pedras do caminho para a escola, e não sabiam nada sobre essas pedras, não sabiam nada sobre esses pés.

Era Primavera, a seguir vinha o Verão, assim lhes ensinara o mestre-escola. Os dias iam crescendo, enchiam-se de luz e calor e tudo parecia sarar: as chagas dos pés fechavam, a pele enrijecia e ficava mais fresca, a água fria das fontes sabia melhor nos lábios e no resto do corpo, os cabelos andavam mais asseados, as marcas da palmatória cicatrizavam mais rapidamente. Todos pareciam felizes e, caso alguém tivesse a ideia de os questionar sobre isso, todos diriam que sim, que estavam contentes. Nenhum deles teria dúvidas em distinguir o Verão do Inverno, porque todos passavam pelo Verão e pelo Inverno, porque lhes ensinaram as estações do ano e, ao passarem por elas, todos as reconheciam, como reconheceriam a alegria e a liberdade, se lhes tivessem ensinado a alegria e a liberdade. Porque essas são coisas que obedecem a um percurso e há que fazê-lo par o conhecer, para o reconhecer.

Hoje é Primavera e o Verão não tarda. Sei disto, porque alguém me ensinou esses nomes e eu repito-os, tenho-os repetido toda a vida. Tenho repetido as estações e os seus nomes e não me canso. Tenho repetido a palavra amor, tenho conjugado verbos com pessoas, tenho repetido a palavra liberdade. E não me canso. Não me canso de repetir essas palavras e de as percorrer em voltas e rumos diversos: sei que a luz que incide sobre elas no Verão é a mesma que incidirá no Inverno, porque essa luz emana de dentro de mim e, quando sai para iluminar as coisas mais ou menos sensíveis do mundo, sai para me libertar.

Sei da importância da luz tanto e tão bem como eles (os que não distinguiam a luz do sol da luz de um olhar feliz) sabiam. E por isso, não me sai esta ideia da cabeça: se não fossemos um país de tanto sol, se os Invernos fossem ainda mais rigorosos e mais longos, e o sol não aparecesse tanto para encandear olhares e afagar as almas em revolta… Não seríamos livres há mais tempo?

Não queria fazer isto, sei que é um álibi tonto, mas posso (só hoje!) imputar as culpas ao sol? Amanhã, ele brilhará outra vez, para me ensinar coisas abertas sobre a liberdade, para me ensinar que a culpa não existe. E, ao acumular aprendizagens debaixo desta luz quente, sei que nunca me hei-de cansar de ter luz, nunca me hei-de cansar de ser livre e de despertar diariamente neste diálogo:

- Bom dia, gente livre!

- Bom dia, Liberdade!

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Breve nota sobre os dias

Abria os olhos e via que lhe aconteciam coisas extraordinárias por esses dias. Via que era Primavera e que o sol brilhava e afagava as árvores e as flores, tanto nos canteiros de uma casa feliz, como nas avenidas de uma cidade cinzenta. Via pessoas a passarem ao seu lado na rua e sabia que tanto iam alegres como tristes, tanto caminhavam sabendo que caminhavam, como levitavam, aparentando simplesmente caminhar. Via gente que passava e gente que olhava. Gente que parava, por vezes, fincando as mãos em ombros ou noutras mãos. Lágrimas nas mãos de amantes que se despediam, ou o sorriso do homem que plastificava documentos, no cimo de uma avenida.

Tudo isto lhe parecia extraordinário.

Via que o sorriso do funcionário das finanças estava a crédito no dentista e que a colega dele há muito que esqueceu a cor do seu cabelo. Via os ombros resignados dos funcionários noutra repartição pública, e sabia que o tempo que ia ali gastar tinha que lhe chegar, e, de facto, verificava que quando esse tempo acabava lhe tinha chegado. Via que o tempo lhe era sempre útil. E já não parecia que o gastava, como ao dinheiro. Via que essa ligação do tempo ao dinheiro é responsável pelo declínio das coisas humanas. Pelo menos das coisas humanas que lhe interessam a ela, e

Fechava os olhos e via que lhe aconteciam coisas extraordinárias nesses dias. Via que caminhava em direcção ao centro da vida, tanto pelo ritmo cardíaco acelerado e pela respiração apressada, como pela suavidade desses ritmos. Nesses dias, abrir e fechar os olhos na constância de um sorriso parecia-lhe a única coisa extraordinária de toda a sua existência. E era-o, de facto: não tinha que se sentar e escrever para pensar sobre isso. Não tinha que correr para acompanhar o mais veloz dos pensamentos. Não tinha que sonhar para ter o que queria. Não tinha que nada: Pensar é estar aqui, correr é estar aqui, sonhar é estar aqui. Via isto, enquanto existia. E existir, por esses dias, era uma coisa extraordinária.