Uma janela, a palavra "saudade" repetida, uma frase simples sobre a vontade de amar.Uma imagem completa. Pena não ser eu essa janela, não ser eu essa saudade, não ser eu esse amor. Posso apenas fazer-me parede e manchar-me de palavras boas ou más, tanto faz...
domingo, 12 de novembro de 2017
Última ceia
terça-feira, 24 de outubro de 2017
Fado da Esposa Solteira
terça-feira, 1 de abril de 2014
Ai, Abril!
sexta-feira, 21 de março de 2014
Daffodils' dust
Come and see
My dear
How soon the daffodils have arrived this year!
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
A espessura dos 40
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
O tamanho das mãos
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Portugal ausente
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Moro onde começa a cidade
Moro onde começa a cidade
Vejo-a de cima
Debruçada na varanda.
Uma chusma de pregões dispersa
Sobe pelas fissuras das casas
Entra-me pelas narinas
Em aromas de salsa e coentros
Que sobram aos cestos cheios
Alinhados num chão pétreo.
Os infantes ciganos retesam-se nas tendas
Acima do frio e da bruma
Soltam aplausos às próprias palavras
chispadas pelo olhar agudo de um pai.
Acordo onde começa a cidade
Das igrejas manda-se o tempo passar
Sonoramente
A cada quarto de hora
Um galo canta até que seja meio-dia.
Piropos escorrem brutamente
Das bocas dos feirantes
Moças redondas escorregam torpemente.
Uma mãe passa por outra mãe
Perante o meu olhar que desperta
Sopesam-se
Tudo é som, cheiro e alimento.
Moro onde começa a cidade
Entre as mães
E a vida.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Tristeza mascavada
Chegou até mim sem ser chamada
E aqui foi ficando sempre serena
Tinha uma forma
Tão imperfeita
Tão mascavada
Coisa pequena, menosprezada
Tão imperfeita
Tão mascavada
Abraçou-se a mim, fez-me ter pena
E agora a tristeza que fez de mim leito
É refinada
Tão refinada
Que eu só quero de volta ao meu peito
Aquela tristeza das coisas pequenas
Tão imperfeita
Tão mascavada!
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Poema para Adriana
Adriana é um dia de semana.
Grande coisa para se ser, pensam uns
E por que não será a semana toda, perguntam outros
Já que a pões num poema, dá-lhe o tempo todo
Resmunga o Zé a um canto
Eu, que da Adriana devia apenas pensar o nome
Atrevi-me hoje a escrevê-lo
Como se o nome fosse um dia inteiro
E sei que ao ser um dia inteiro
Adriana parece mais do que se for apenas um dia da semana
Que é o que ela é.
E aqui, aqueles que escarneceram da importância de se ser um dia da semana,
(De se ser Adriana
De se ser um dia à escolha, de domingo a sábado
De se ser e de se ter escolha sobre todo um dia)
Já percebem que o seu escarnecer era incompreensão e inveja
Todos menos um
Que não tem nenhum desses alcances
Nem o da incompreensão
Nem o da inveja
De Adriana
O Zé dá-lhe o tempo todo
Eu posso apenas dar-lhe um poema
Que vale o que vale
Mas é inteiro
Como um dia da semana
Como Adriana.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Manhã
Desperto com metáforas nas mãos
Amarfanhadas, enrugadas, envergonhadas
(as metáforas, não as mãos)
Água corrente, espelho partido, sabão
Rotina limpa-retinas
Castigando-me com a visão
A toalha que enxuga o rosto
É a mesma de ontem e do dia anterior
Não secou
Que dia lhe sustentará o interior húmido?
Adiciono-lhe as dúvidas de hoje
Devolvo-a ao varão.
Despejo três adjectivos no saco do pão
Velho duro sensaborão
Levo ao lume a cafeteira com pó para dois
Revela-se um aroma lógico no ar da cozinha
Ocorre-me: Será de ti? É do café, pois
Nós existimos, sem argumentos
Enfias as mãos - metáforas lógicas - no saco do pão
Tiras as dúvidas:
Queimas as palavras
E torras o pão.
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Ryan Nash was waiting to be a poet

Ryan Nash is waiting at Admiralbrücke
He is waiting now there While I ride his green bicycle around kreuzkölln
Ryan Nash is sitting on a bridge waiting for Paula
Jean Paul Sartre would never wait for Simone sitting on a bridge
He thinks
While a poem grows smoothly underneath his fingers
Ryan Nash is waiting to be a poet
While smiling underneath his subtle poetical grief
Gently lifting a glass to his mouth
Like he knew Yeats would have done
While waiting for the birth of his Drinking Song
And he is still waiting on that bridge
And I’m still riding around on his green bicycle
And that “p” for Paula will soon be the same “p” for poem
Though both “p” and “p” are driven by discovery
Ryan Nash isn’t yet aware of that
One is meant to be found the other is meant to be.
This he knows for sure while waiting to be a poet
While I ride around Berlin sitting on that hard saddle
Merry-go-round with two broken pedals
While Ryan’s own saddle was to be ceased
As he stretches his eyes along the river crossing the park
And
There she was being a poem
And
So he was being a poet.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Estado Geral de Cumplicidade
Sei cá de uma história em que
Um jovem lavava os pés
E encontrava o seu primeiro amor
(Descalço)
Encontrava o seu único amor.
Os sapatos que um dia viu numa cena de um filme
(em que um piano ardia)
Nunca se lhe ajustaram à vista
Nunca se lhe ajustarão aos pés
Esses pés limpos que sempre caminharam
Nus
Ajustados ao chão que pisavam livremente.
Eu, que até uso botas e lhes mudo as solas
E que em criança encomendava sandálias a um sapateiro mentiroso
(o mesmo que, no couro, cosia bolas)
Também trago os pés limpos, rentes ao chão
E sei de cenas de filmes em que ardem pianos.
Parece pouca cumplicidade, mas não
Sou tão cúmplice e responsável com pés limpos
Como com esta luva que me esconde a mão
Onde grita o medo e a opressão
Dos que vivem ali, naquela longa Faixa
Afastando dia-a-dia os escombros que foram casa
Aturando a perfídia de altos fazedores de luvas
Que escondem o sangue das mãos e esmagam Gaza.
Sou cúmplice porque me calo e cúmplice porque falo.
Tenho um certo estado de felicidade
É verdade.
Mas isso não me iliba de cumplicidade.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Revisão recente a um amor fracassado
Nos dias em que não sinto dores no tornozelo
Lembro-me daquele rapaz e da minha mocidade
E de tantos momento para mim de zelo
E, para a minha mãe, pura leviandade!
Nos dias em que a artrose não me ataca
E me leva à cama ou me põe numa maca
É que me lembro daquele mancebo
De mãos ásperas e braços fortes
A medir-me as ancas, a gabar-me o porte
A tirar-me da cara o palminho que deus me deu
E a pôr-me no corpo, outro palminho bem seu.
Só nos dias em que a vesícula parece rebentar
É que me vem à cabeça aquele peito de pedra
Aquele moço de vigor e de saúde que medra
Aquele cortejar, adocicando-me a bílis
Uma espécie de selo que me dava forma
Um ex-líbris que o passado adorna
E foi antes, muito antes
Do reumatismo, das artroses ou das vesículas biliares
Que um dia o vi a ir pelos ares.
Lembro-me bem de como fugia
Qual acrofóbico a subir para as nuvens
De olhos fechados e sem se voltar
Segurando a mão de outra, todo contente
E eu feita em lágrimas e espasmos de dor
Néscia na vida, ignorando o amor
Julgava o corpo apenas doente.
Enrolando dias, desfiando histórias
A vida cresceu como um novelo
E num baile de boas e más memórias
Voltam-me as dores no tornozelo
Ocorre-me isto (e não é que goste):
Partir corações e andar de avião
Sempre se fez por meio tostão
Que fará agora, com tanta Low Cost!...