Mostrar mensagens com a etiqueta Poemas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poemas. Mostrar todas as mensagens

domingo, 12 de novembro de 2017

Última ceia

Tinha diante de mim o tempo passado
Uma conversa incerta
Um certo assunto sempre adiado
E numa girandola de frases prolixas
Guardo o olhar com que me fixas.

Tinha diante de mim um poeta frustrado
O pensamento exangue
(ou apenas cansado)
Varrendo do rosto o suor de uma estância
Encerrando num verso a memória de infância.

Tinha diante de mim a última ceia
Estendida a métrica na mesa comprida
Os versos presos em copos sem vida
E o vinho solto, sem tema ou ideia

Cá estava talhando a melopeia.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Fado da Esposa Solteira

Tu
Que chegas sempre tarde
Tu
Que ages sem amor por mim
Olha
 Paciência também arde
E
Como a paixão 
Também tem fim.

Disse um dia isto ao jantar
Ela, que fala sem pensar
Disse-lhe, então:
- Como quiseres
Pois, a fleuma - sei-o bem! -
É virtude de outras mulheres.
E agora pensa o que quiseres
Que sou machão e insensível
Ou petulante e irascível.

Leva a tua pressa para a rua
Lava e passa a roupa que é tua
Leva a graxa p´rós sapatos
Lava as mãos como Pilatos
Leva sabido e bem gravado:
Podes chorar e estrebuchar
Podes vir cantar o fado
Que eu não volto a ser tua

Assim falou aquela que mais amo
Limpas as mãos em branco pano
Feitas as contas ano a ano
Fechada a porta e a fechadura
Sem complacência ou mesura
Sem um abraço pelos danos
Sem uma gota de ternura.

E foi assim desta maneira
Que a minha esposa ficou solteira.



terça-feira, 1 de abril de 2014

Ai, Abril!

Ai Abril, Abril
Canto de cisne tão pueril
Tanto de nobre e tanto de vil
Tanto se sonha neste covil!

Ai Abril, Abril
Tantos caíram no teu ardil:
Ignorantes e doutos, gente servil
Tão resoluta e dissoluta
Gente que luta, mês após mês
nesta certeza que não se desfez:

Semente espalhada em aridez
Redunda em colheitas de insensatez.

Ai Abril, Abril
Mentira lançada como verdade
Rima com tudo o que é mesquinho
Rima com bancas, spreads, cobranças
Vidas austeras, reles poupanças
Pobreza de espírito e arranjinhos…

Ai Abril, Abril
Mais são as águas do que as mil mágoas
Mais as colheitas do que as desfeitas
E mais vitória, apesar da escória!

Ai Abril, Abril
Canto de cisne tão pueril
Tanto de nobre e tanto de vil
Tanto se luta neste covil!



sexta-feira, 21 de março de 2014

Daffodils' dust









Come and see 
My dear 
How soon the daffodils have arrived this year!

Lay your eyes upon those fields:
What a light, what a bright golden light
Daffodils bring!

See yourself in that mirror
My dear

You may find I’m just the dust
I’m just the pollen
In that mild wind of Spring.


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A espessura dos 40

Até já há o que contar, até já há o que esquecer, até já há o que                                                                                                   [lembrar].
Até já se foi palavra-corpo, palavra-bala, palavra-escudo
Brilho, sonho, astúcia, estupidez … Tudo!
E leram-se livros, ouviram-se discos, fizeram-se ícones e os melhores amigos!
Até já se foi cão, até já se foi cabra, sim, até já se foi bicho, até já se                                                                                           [foi bicha].
Até já se foi pai, até já se foi mãe, até já se foi filho e neto.
Até já se foi casa, grandes alicerces
Até já se foi chão, até já se foi tecto.
Até já se tem rugas, cãs e maleitas. Tem-se um ror de coisas feitas!
Aos 40 a gente aguenta
Mas até já se ganhou, até já se perdeu, até já se sofreu,
Até já se morreu.

E volta-se ao centro, como num jogo de bola
E vai e vira e gira e volta,
Roleta russa, sem revólver, com pistola

Ainda há o que contar, ainda há o que esquecer, ainda há o que                                                                                                   [lembrar]
Ainda há espessura, lustro, inteligência, bastante estupidez
                                                                 [que se chama insensatez]
Ainda há livros para ler, autores para citar - até já se pode escrever!
Ainda se é animal, lobo ou loba - essa espécie fatal!
Ainda se é pai e mãe e filho, vislumbram-se netos e um andarilho
Ainda há coisas feias, pedras nas mãos e telhados de vidro.
Ainda vêm mais rugas, cãs e maleitas, (quem sabe) carinho...
E tudo juntinho, contas bem-feitas:
Aos 40 há gente que assenta
Mas ainda há que ganhar, ainda há que perder, ainda há que sofrer,
Ainda há que viver…


Até já!

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O tamanho das mãos



Em cada linha que escrevo
A cada pensamento acabado
Por  cada verso que rima
Em cada palavra que trago
Minto.
(Que bem que o fiz ainda agora)
Sentir, vou sentindo
Mas ao buscar ideias para dizer o que sinto
Minto.

Todas as ideias são feias
Quando se põem a sentir
Todos os sentimentos
Quando se põem com ideias
Não fazem senão mentir.

Por isso, minto:
Cai-me suor das mãos para as teclas
Por onde mentiras escorrem secretas
Disponho em linhas tudo o que sinto
E essas linhas com que me coso
É que escondem verdades minhas.

Na verdade, minto:
Pouso sobre o que sinto
O tamanho das mãos
Cuja sombra revela a escrita
- Desdita tamanha! Pobres garras!-
E nunca minto sobre o que sinto.

Minto. É verdade.
Se mentir assim é pecado
Não posso mais que render-me a este fado:
Quando Caronte colher as moedas
Que sobre os meus olhos ireis colocar
Dir-lhe-ei, ali, sobre as turvas águas
Sem medos, rancores ou mágoas:
Que deus não me perdoe!

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Portugal ausente




Olha, Portugal, fiz de ti um poema
Enquanto esperava que chegasses
Que para afrontar estes medos
Inventasses um esquema
Despontaram-me longas unhas nos dedos
E com elas esventrei palavras
Guardei-te numa espécie de poema.

Escolhi a pátria triste do meu pai
Para te guardar o P
Escolhi uma oração solene
Que te redimisse d’ ódio
Para te guardar o O
Escolhi rios, riachos e um rumor que corre
Para te guardar o R
Escolhi o pão que se divide com um amigo
E um imenso campo de trigo
Para te guardar o T
Escolhi o arrojo de Ulisses
Para te guardar o U
E a passarola de Gusmão
Para te guardar o G
E a alma de um poeta
Para te guardar o A
Ah, e escolhi o teu fim, Portugal
Para te guardar o L.

Escolhi sonhos e memórias do mar
Mães e pais e filhos para amar
A linha do horizonte
E a travessia de uma ponte.

Queria ver-te navegar mais livre
Nesse mar que te arrasta
E te devolve mais forte
Que te garante a vida
Desfigura e afronta a morte.

Olha, Portugal, não é por mal:
Vai-te! Quero ver-te partir!
Proscrito refarás este mapa
Onde uma memória de domínio
Há muito te mata.
É chão prescrito,
É fonte que secou!
E um mundo novo te escapa.

Não deixes, Portugal!
Tira-te dessa incómoda carraça
Não vais lá de caravela, de bravura insana
Fé inabalável ou apelo à raça.
Vai-te Portugal, faz-te à vida!
À vidinha, sim senhor!
Leva a ciência, a tecnologia, a mão-de-obra barata
Os artistas e os doutores de gravata,
Uma rima básica, o que for!
Mas não te fiques, Portugal
Que esta terra que sonhaste não ata nem desata:
Mata. E alimenta-te de rancores.
Já sabes que é assim:
Uma pátria constrói-se de suor, lágrimas
E o raio da saudade que te parta!
Não te fiques, Portugal,
Eu quero ver-te partir feito em lágrimas
Eu quero ver-te chegar
Quero que regresses desse infinito mar, Portugal.

Trago-te guardado dentro das palavras
Que (ainda) recordo como nossas.
Vem, Portugal, vem logo que possas,
Não é pela saudade
(Que disso não há quem nos cure)
É que tenho as unhas grandes
Dava-me jeito uma manicure.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Moro onde começa a cidade

Moro onde começa a cidade

Vejo-a de cima

Debruçada na varanda.

Uma chusma de pregões dispersa

Sobe pelas fissuras das casas

Entra-me pelas narinas

Em aromas de salsa e coentros

Que sobram aos cestos cheios

Alinhados num chão pétreo.

Os infantes ciganos retesam-se nas tendas

Acima do frio e da bruma

Soltam aplausos às próprias palavras

chispadas pelo olhar agudo de um pai.

Acordo onde começa a cidade

Das igrejas manda-se o tempo passar

Sonoramente

A cada quarto de hora

Um galo canta até que seja meio-dia.

Piropos escorrem brutamente

Das bocas dos feirantes

Moças redondas escorregam torpemente.

Uma mãe passa por outra mãe

Perante o meu olhar que desperta

Sopesam-se

Tudo é som, cheiro e alimento.


Moro onde começa a cidade

Entre as mães

E a vida.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Tristeza mascavada

Chegou até mim sem ser chamada

E aqui foi ficando sempre serena

Tinha uma forma

Tão imperfeita

Tão mascavada

Coisa pequena, menosprezada

Tão imperfeita

Tão mascavada

Abraçou-se a mim, fez-me ter pena

E agora a tristeza que fez de mim leito

É refinada

Tão refinada

Que eu só quero de volta ao meu peito

Aquela tristeza das coisas pequenas

Tão imperfeita

Tão mascavada!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Poema para Adriana

Adriana é um dia de semana.

Grande coisa para se ser, pensam uns

E por que não será a semana toda, perguntam outros

Já que a pões num poema, dá-lhe o tempo todo

Resmunga o Zé a um canto

Eu, que da Adriana devia apenas pensar o nome

Atrevi-me hoje a escrevê-lo

Como se o nome fosse um dia inteiro

E sei que ao ser um dia inteiro

Adriana parece mais do que se for apenas um dia da semana

Que é o que ela é.

E aqui, aqueles que escarneceram da importância de se ser um dia da semana,

(De se ser Adriana

De se ser um dia à escolha, de domingo a sábado

De se ser e de se ter escolha sobre todo um dia)

Já percebem que o seu escarnecer era incompreensão e inveja

Todos menos um

Que não tem nenhum desses alcances

Nem o da incompreensão

Nem o da inveja

De Adriana

O Zé dá-lhe o tempo todo

Eu posso apenas dar-lhe um poema

Que vale o que vale

Mas é inteiro

Como um dia da semana

Como Adriana.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Manhã

Desperto com metáforas nas mãos

Amarfanhadas, enrugadas, envergonhadas

(as metáforas, não as mãos)

Água corrente, espelho partido, sabão

Rotina limpa-retinas

Castigando-me com a visão

A toalha que enxuga o rosto

É a mesma de ontem e do dia anterior

Não secou

Que dia lhe sustentará o interior húmido?

Adiciono-lhe as dúvidas de hoje

Devolvo-a ao varão.

Despejo três adjectivos no saco do pão

Velho duro sensaborão

Levo ao lume a cafeteira com pó para dois

Revela-se um aroma lógico no ar da cozinha

Ocorre-me: Será de ti? É do café, pois

Nós existimos, sem argumentos

Enfias as mãos - metáforas lógicas - no saco do pão

Tiras as dúvidas:

Queimas as palavras

E torras o pão.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Ryan Nash was waiting to be a poet


Ryan Nash is waiting at Admiralbrücke
He is waiting now there While I ride his green bicycle around kreuzkölln
Ryan Nash is sitting on a bridge waiting for Paula

Jean Paul Sartre would never wait for Simone sitting on a bridge

He thinks

While a poem grows smoothly underneath his fingers

Ryan Nash is waiting to be a poet

While smiling underneath his subtle poetical grief

Gently lifting a glass to his mouth

Like he knew Yeats would have done

While waiting for the birth of his Drinking Song

And he is still waiting on that bridge

And I’m still riding around on his green bicycle

And that “p” for Paula will soon be the same “p” for poem

Though both “p” and “p” are driven by discovery

Ryan Nash isn’t yet aware of that

One is meant to be found the other is meant to be.

This he knows for sure while waiting to be a poet

While I ride around Berlin sitting on that hard saddle

Merry-go-round with two broken pedals

While Ryan’s own saddle was to be ceased

As he stretches his eyes along the river crossing the park

And

There she was being a poem

And

So he was being a poet.


segunda-feira, 7 de junho de 2010

Estado Geral de Cumplicidade

Sei cá de uma história em que

Um jovem lavava os pés

E encontrava o seu primeiro amor

(Descalço)

Encontrava o seu único amor.

Os sapatos que um dia viu numa cena de um filme

(em que um piano ardia)

Nunca se lhe ajustaram à vista

Nunca se lhe ajustarão aos pés

Esses pés limpos que sempre caminharam

Nus

Ajustados ao chão que pisavam livremente.

Eu, que até uso botas e lhes mudo as solas

E que em criança encomendava sandálias a um sapateiro mentiroso

(o mesmo que, no couro, cosia bolas)

Também trago os pés limpos, rentes ao chão

E sei de cenas de filmes em que ardem pianos.

Parece pouca cumplicidade, mas não

Sou tão cúmplice e responsável com pés limpos

Como com esta luva que me esconde a mão

Onde grita o medo e a opressão

Dos que vivem ali, naquela longa Faixa

Afastando dia-a-dia os escombros que foram casa

Aturando a perfídia de altos fazedores de luvas

Que escondem o sangue das mãos e esmagam Gaza.

Sou cúmplice porque me calo e cúmplice porque falo.

Tenho um certo estado de felicidade

É verdade.

Mas isso não me iliba de cumplicidade.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Revisão recente a um amor fracassado

Nos dias em que não sinto dores no tornozelo

Lembro-me daquele rapaz e da minha mocidade

E de tantos momento para mim de zelo

E, para a minha mãe, pura leviandade!


Nos dias em que a artrose não me ataca

E me leva à cama ou me põe numa maca

É que me lembro daquele mancebo

De mãos ásperas e braços fortes

A medir-me as ancas, a gabar-me o porte

A tirar-me da cara o palminho que deus me deu

E a pôr-me no corpo, outro palminho bem seu.


Só nos dias em que a vesícula parece rebentar

É que me vem à cabeça aquele peito de pedra

Aquele moço de vigor e de saúde que medra

Aquele cortejar, adocicando-me a bílis

Uma espécie de selo que me dava forma

Um ex-líbris que o passado adorna

E foi antes, muito antes

Do reumatismo, das artroses ou das vesículas biliares

Que um dia o vi a ir pelos ares.


Lembro-me bem de como fugia

Qual acrofóbico a subir para as nuvens

De olhos fechados e sem se voltar

Segurando a mão de outra, todo contente

E eu feita em lágrimas e espasmos de dor

Néscia na vida, ignorando o amor

Julgava o corpo apenas doente.


Enrolando dias, desfiando histórias

A vida cresceu como um novelo

E num baile de boas e más memórias

Voltam-me as dores no tornozelo

Ocorre-me isto (e não é que goste):

Partir corações e andar de avião

Sempre se fez por meio tostão

Que fará agora, com tanta Low Cost!...