sexta-feira, 3 de julho de 2015

Sardinha assada

Ali, nas minhas costas, depois de uma escuridão insana, está o mar. Sei que está para lá da parede, mas não o vejo. Resmas de turistas entram e saem do restaurante, quando confrontados com essa estapafúrdia evidência de que as varandas não se abriram para o Atlântico, ali ao lado. Sorrio para o empregado de mesa e pergunto-lhe porquê, sabendo de antemão que há leis que o proíbem. Há leis que erguem pesados muros em frente ao mar, que no-lo ocultam, que ainda um dia nos porão molas no nariz para que nem o cheiremos.
Peço sardinhas. Umas quatro, diz ele, pondo o pensamento na minha silhueta. Concordo. Estou sozinha, num dos meus restaurantes preferidos desta zona do país. Na Apúlia.
Ontem foi dia de estreia. Achei que merecia vir ao mar. O empregado reconhece-me de outras vezes. Diz: “Os percebes do costume?”- Sabe, certamente, o encanto que tem ouvir a palavra “costume”, quando parecemos tão sós, tão alheados de coisas acostumadas. Não tenho, obviamente, como recusá-los. Já que vim ao mar, posso pô-lo dentro de mim. Assim me entendo com os percebes: um pedaço de mar que me penetra. E não há pensamento que me provoque, nesse instante.
Os pensamentos vieram mais tarde, em catadupa, desalinhados, ébrios.
As memórias da noite anterior, a que muitos chamariam de “gloriosa” e que, para mim, teve aquele sabor agridoce das escolhas, vieram-me à memória e fugiram.
Há meses que não escrevo uma linha. Lembro-me da Patrícia que se encantou por eu ter confessado que não escrevia, nem pensava nisso todos os dias. Nem todas as semanas, nem todos os meses.
E, mal ela sabe, que há anos em que... nem por isso.
Tenho uma certa pena dos escritores de oficina. Embora, muitos deles sejam os que mais respeito - há uns anos não suporia poder reunir num só sentimento pena e respeito. Hoje posso. O amadurecimento é um processo sempre surpreendente.
Vêm-me nomes à cabeça. Nenhum é alemão, mas vem-me o Caetano Veloso a tentar corrigir o universo sarcasticamente, quando diz que “está provado que só é possível filosofar em alemão”.
Depois, acto contínuo, vem-me o Kafka à ideia e penso entre um arrepanhar de espinhas, que aquilo tudo foi por nunca ter comido sardinha assada. Nem era bem alemão, nem checo, mas consta que pensava. Vai-se a ver era grego, como somos todos, afinal. Ainda assim, causa-me dó! Gente que sofre de azia, sem nunca ter cheirado pimento assado? Sem nunca ter assentado uma sardinha num naco de broa? Vá-se lá perceber isto! Que conhecimento da vida terá essa gente, que nos seja de alguma serventia? O verde branco, esclarecedor, diz-me que nenhum. Nada, népias, nicles.
Volto a ontem e às escolhas. E à amarga percepção de que as pessoas gostam mais de mim, quando estou fora de mim. 
Oiço a pergunta muitas vezes repetida, com poucas variações: “Escrita ou teatro?”, como quem: “papá ou mamã?” ou “mãe de lá de cima ou mãe de cá de baixo?” - como perguntavam à minha irmã, na infância, quando teve a sorte de sentir que tinha duas mães (assim percebo melhor a sua força e outras conspirações do universo).
Vou responder, de uma vez por todas: A escrita. A escrita sou eu vista por dentro e a escarafunchar sempre mais. O Teatro põe-me fora de mim, no lugar, onde (também) estão os outros. É uma responsabilidade muito grande. Que me apavora. A escrita nunca me amedrontou. Quando o fizer, deixo-a estar. Vou a restaurantes e peço sardinhas assadas, mas nunca fora do tempo.
A estreia correu bem. Dizem-me.
Confirmá-mo-la hoje e amanhã. E depois, voltamos a ser o que somos: nós, dentro de quem nos ama. 
O resto nem chega a ser brasa. É carvão vegetal, dentro de sacos fechados.



quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Para uma primeira leitura de Não Sabias o Que Levavas às Costas?

Qual é o momento da vida em que somos mais fecundos, mais capazes, mais felizes?
Por que tratamos os mais velhos como inválidos, incapazes, ineptos?
“Esta é a sociedade da rejeição do erro, da vergonha da falha, uma sociedade com um acesso descontrolado ao conhecimento, mas com pouca sabedoria. Conseguem explicar-me em que momento é que estes dois conceitos se separaram?” – Indaga Matilde, a anciã, personagem central de Não sabias o que levavas às costas?
A questão do título (roubada a Goya) não é A questão, é só mais uma, de um avolumar resultante de uma contemporaneidade volúvel, carregada de incertezas e desapegada de afectos.

Não sabias o que levavas às costas? conta a história de Matilde, uma mulher do Minho rural, sem nada de especial, que resolve mudar de vida, pedindo o divórcio, no dia em que comemora as bodas de ouro. A evolução (surpreendente) da vida dessa personagem força à reflexão sobre a forma como a sociedade actual trata os mais velhos.

http://vimeo.com/109445130

domingo, 19 de outubro de 2014

Novo filho de papel


Nunca se poderá saber até acontecer. É assim com a maternidade, é assim com o amor, é assim com a morte. É assim com o não vivido. Mas sabemos que depois dos milagres da maternidade, do amor e da vida, o desejo da eterna ampulheta da existência se prolongam vivos dentro de cada ser humano. Não, não se abdica das lágrimas, do suor, da maior angústia, só pelo desejo de retornar eternamente aos lugares onde a felicidade ganhou, por um dia, por uma hora, por um momento incontável, a forma do rosto que queremos ver antes da derradeira despedida. É a isto que se chama estar vivo. Tudo o resto é um amontoado de episódios escritos por sabe-se lá quem, que pode perfeitamente ter uma desastrada falta de talento para a escrita.
É precisamente sobre a escrita que falo agora. A minha escrita. A que não pedi a ninguém, mas que vive em mim, como se fosse mãe, como se fosse amor, como se fosse o último fôlego da minha vida, como se o rosto que Verónica limpou tivesse sido sempre o meu e o que um dia ficou para sempre inscrito naquela toalha fossem estes meus filhos de papel.

Chegará a outras mãos, por estes dias, mais um destes filhos. É o melhor, o mais desejado, atributos que já um dia foram dados a outros e que não retira sinceridade alguma a tudo isto. 
É este o meu eterno retorno: os livros que não sonho que escrevo, mas escrevo mesmo assim. Escrevo, de facto, escrevo dentro da realidade que tantas vezes desprezo, mas da qual nunca me aparto. Entre este e outros partos, sei que não parto, sei que não vou a lugar nenhum, se o meu encontro não for brindado com as vossas leituras dedicadas a estes filhos de papel.
Não tenho mais que vos deixe. Só, talvez, abraços no corpo esfíngico da memória, que nunca sabe o que leva às costas.

sábado, 18 de outubro de 2014

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Top 10 de características que (pelos vistos) fazem de mim uma freak


1.       Não morro de amores nem por sexo nem por chocolate;
2.       Não falo das minhas relações abertamente, a não ser com as minhas relações;
3.       Tenho 40 anos e não sou mãe nem faço questão de ser;
4.       Não tenho, nem ambiciono ter, uma carreira;
5.       Escrevo livros que não vendem e isso pouco me importa;
6.       Sou uma actriz do catano, mas detesto estar em palco;
7.       Tenho duas cicatrizes na testa, desde que me lembro de ser gente;
8.       Detesto jogos (talvez porque sinta uma natural propensão para o vício);
9.       Suspeito que vá morrer precocemente e isso alivia-me;

10.   Professo uma só fé: a do Amor;

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Um mundo madraço: se não dá trabalho, faço!


As redes sociais são, como se sabe, um espelho completo da humanidade. Acredito mesmo nisto, não estou a usar de ironia, que é coisa que eu só não gasto se não puder MESMO! Faço delas uma utilização conveniente, como acho que acontece a muita gente: aproveito os posts com notícias dos amigos espalhados pelo mundo para ter uma noção do que o mundo espalha, porque aqui onde estou não me chegam jornais e, desde que as edições online do PÚBLICO e do EXPRESSO me começaram a ameaçar com a leitura de apenas mais um artigo, deixei de lhes dar importância. Sou assim: amuo com jornais nacionais! Enfim, feitios!...
No fundo eu queria era falar do Obama e do seu minutozinho de impubescência nas cerimónias fúnebres do Mandela: aquele acto que disseminou o selfie à escala global e imparável da estupidez. Nem sei bem como me referir ao selfie, qual é o género da palavra? - Masculino, Feminino, Neutro… Electrão?!
Enfim, não deixa de me maravilhar a forma como certos actos se tornam num fenómeno de popularidade tão grande! O que eu não percebo é como é que um sucedâneo do auto-retrato (a palavra é masculina, portanto) ganha tamanho esplendor. É preciso referir que Van Gogh se matou à custa de tanta produção desse género. Quer isto dizer que nos espera uma sociedade de selfie-suicidas em massa? – Não me parece. Van Gogh matou-se de trabalho! Aquilo requeria muito esforço: ficar em frente ao espelho, horas e horas a fio, munido de cavalete, pincéis, tintas e um sentido de precisão e múltiplas intenções e até mutilações, que, muito provavelmente, o conjunto de jovens que se selfie-selfou (apostou que nem o Mia Couto se lembraria disto!) às portas de Auschwitz sob a inscrição “arbeit macht frei” deveria estar longe de compreender. Muito provavelmente, a sua atitude, e a do Obama certamente também, está nos antípodas dessa noção do trabalho que glorifica. Na verdade, este é só um mundo madraço: se não dá trabalho, faço!

 A minha pouco perturbável indolência é bastante compreensiva com esta atitude do mundo moderno: o trabalho nem liberta, nem compensa, nem dá “likes” nas redes sociais. Já um acutilante larápio, a displicência, a estupidez e o voyeurismo arrastam multidões!

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Eu, de bola e de política...

Eu, de bola e política, não sei nada. Nem parece bem a uma mulher meter-se nessas coisas!
Devíamos andar por meados da década de 80 e enunciados como este eram muito comuns. Ouvia-os da boca das minhas avós, das vizinhas, das comadres. Isso é bom é p’rós homens. E era, devia ser… não tenho bem a certeza. Sei que na mercearia do meu avô se discutia muito a bola, com grandes caralhadas e exaltações, mas que acabava sempre tudo em bem. Já com a política, não era bem assim… Não, não me refiro à qualidade do discurso, que a retórica era sempre a mesma, quer se tratasse de bola, política ou divisão das águas para a rega. Refiro-me ao acabar tudo em bem. Lembro-me de assistir ao início (ou seria já o auge, não sei que a minha avó arrastou-me dali, prudentemente) de um enorme tumulto, onde a mulher de um dos mais exaltados, com o pretexto de o acalmar, aproveitou para lhe esmurrar o nariz. – Foi aí que percebi por que não deve uma mulher meter-se nesses assuntos: se o macho sai em prejuízo, convém afastar a fêmea…
Mas os tempos eram outros e a política só se discutia quando acabava a bola. Hoje não é bem assim… que digo eu? – Não é nada assim, hoje os tempos são outros! É a maturidade da democracia, a educação, os discursos polidos em 4x4x2, na verticalidade dos passes, no entrosamento do médio ala com o avançado, e às vezes até com a baliza, tudo se entrosa no fundo, excepto quando a bola não entra na baliza adversária – aí é que está o caralho e volta tudo ao que era!
Confesso que já gostei de tudo isto um bocadinho. Adorava jogar à bola, era boa de bola, até tenho medalhas! Nestes campeonatos do mundo até sentia um certo júbilo, até dizia nós até jogámos bem, nós perdemos, mas lutando; nós isto, nós aquilo e, de facto, sentia uma espécie de multidão em mim. Confesso que tudo isso se esvaneceu. Ontem pus-me 5 minutos em frente ao televisor e nesses 5 minutos devo ter bocejado umas dez vezes. É que aquilo é chato, é mesmo chato, não há volta a dar-lhe! Sou capaz de ficar 5 horas a ver uma partida de ténis, mas sozinha, sem tremoços, cerveja e a algazarra dos amigos à minha volta, tudo aquilo me parecem movimentos ridículos e sem sentido.

O futebol nunca devia ter saído do registo do recreio: havia uma bola, um dono da bola, jogava-se à bola e o jogo acabava quando o dono da bola levava uma abada. Mais do que isso, é política e nós ainda não estamos preparados para isso.
Quando começa o campeonato?