terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Aviso: esta croniquinha pode ferir susceptibilidades


Isto é uma croniquinha sobre os ingleses.
Os ingleses são aquele povo que SABE que é o melhor do mundo.
Os ingleses não se sabem temperar sem natas.
Os ingleses vivem num casino: paga-se no talho, paga-se na peixaria - até aqui tudo bem -  mas paga-se também no bom e no mau senso. Paga-se X na segunda-feira e X ao cubo na terça-feira. Os comboios têm preços diferentes, conforme o horário e esses preços têm uma variação obscena, digna de terceiro mundo. Corre tudo bem, desde que esteja escrito num papel qualquer, ainda que assinado de cruz.
Sabem quantos ingleses são precisos para amanhar duas douradas?
– 3.
Sabem quanto tempo levam para o fazer? – 20 minutos.
Sabem quanto tempo leva a internet para ser instalada? – 22 dias.
Os ingleses têm tudo controlado. Os electricistas levam 159 libras para mudar três lâmpadas e deixam os três candeeiros que estavam avariados, mais avariados do que já estavam. Depois, prometem voltar em data certa para reparar esses candeeiros. E voltam. Os candeeiros é que não se auto-reparam. Os ingleses são muito pontuais, só que não sabem a razão pela qual chegam sempre a horas certas.
Os ingleses têm alcatifa na casa-de-banho e na cozinha. E põem natas no mexilhão, os tolos!
Os ingleses sabem protestar a horas certas sobre as horas que estão erradas, mas não fazem ideia por que se revolta e equivoca o tempo.
Se para nós tempo é tempo, para eles tempo é dinheiro. Porque os ingleses vivem num casino. Já disse isto, não disse?
Outra dia, conheci um inglês capaz de recitar 3 versos dos Lusíadas só para me agradar, embora não saiba uma palavra de português. Os ingleses são resilientes e gostam de ficar bem na fotografia. Os ingleses dizem do país que nós temos: “you know: not Spain, the other one”, claro que isto são certos ingleses, poderão não ser os ingleses certos. Mas são sempre os ingleses que vivem num casino e se temperam com natas, disto estou certa.
Os ingleses circulam pela esquerda e nunca se viu gente a andar mais à direita. Os ingleses sabem apontar o Este e o Oeste de olhos fechados, mas não conseguem indicar a Escócia. Os ingleses sabem que hoje, tal como ontem, vai chover, mas quando a chuva chega é sempre um fenómeno muito inesperado e incompreensível.
Os ingleses são um bom povo: educados, simpáticos, honestos (desde que haja um papel a confirmá-lo), se não fosse aquela certeza de que são o melhor que há no mundo, o próprio mundo poderia até encabeçá-los numa candidatura para o efeito.

E, por hoje, é o que me ocorre dizer sobre os ingleses, porque estou com uma assoberbada boa disposição. 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Carta a alguns amigos


Bathlby, Janeiro,2014
Matilde Mrs. M_ _ _ _ vai bem, obrigada!
As relações são como feridas: ou bem que secam ou bem que criam. Esta parece estar a criar. – Há que fazer por isso, como muito bem sabemos todos.
Não me sentia assim desde outra estadia no estrangeiro, no cume dos Alpes, uma pequena aldeia, onde os 49 habitantes vieram um a um ver quem era a rapariga nova do hotel (na altura ainda era uma rapariga, agora sou uma lady, como sabem). Com Matilde Mrs. M_ _ _ _   algo semelhante está a acontecer:
- “Come and meet my new portuguese friend” – diz ela ao telefone. E para mim: Tanto tempo para quê? Tudo tão ridículo, não te parece? E este diabo desta anca que não me deixa em paz (pardon my french)!... Isto, não é vida para ti, protesta.  Achas que devemos dizer às pessoas que nos odiamos? - Como podem ver, está tudo controlado!

Talvez nunca consiga agradecer à S_ _ _ _ por me ter encaminhado para aqui, mas sei que ela sabia o que estava a fazer. Sabemos ambas que somos testemunhas de um pedaço de humanidade que se extingue, que não voltará a existir, a não ser pela nossa experiência. Temos, agora, a tremenda responsabilidade de conservar estes momentos e estas pessoas na memória colectiva.

S_ _ _ _ _, não me parece que tenha tempo para um diário de bordo, como me pediste: felizmente, há muita actividade por aqui e terei que te privar disso que dizes ser a minha maior qualidade: a escrita. Não percebo como te atreves a fazer tal afirmação, depois de teres visto a minha habilidade para adormecer a M.

P_ _ _ _  F. Também posso adormecer o  teu S_ _ _ _, quando voltar…

P_ _ _ _ S. a tua/minha jumper tem sido um sucesso, embora ninguém perceba por que visto uma coisa com sentimentos tão tristes. Não tento explicar nada. Isto é gente muito amargurada pela guerra e outros dissabores que nós desconhecemos. É deixá-los estar.

A_ _ _ _, a minha arca de Noé está a ficar tão composta como a tua. Podes dizer ao A_ _ _ _ _ _, se o vires em Luanda, que já podemos fazer a versão com estrangeiros da festa do andarilho: “Zimmer frame party”. Agora sinto-me muito mais habilitada para fazer coreografias.

E é tudo, por hoje. S_ _ _ _ _ _ cuida de ti e das crianças e da minha casinha! Prometo não demorar muito por aqui, que o peixe é caro! Se vires o carteiro, diz que lhe agradeço ter descodificado a tua direcção. Se souberes de um que tenha conseguido entregar o postal da F_ _ _ _ _ _ _ _, que só dizia: F_ _ _ _ _ _ _ _ , Portugal, diz que lhe pago um jantar.
Beijinhos e abraços também para os que ainda não constam aqui, mas só porque a Matilde  Mrs. M_ _ _ _me chama.

Enjoy the marmalade!
Eugénia Miss Brito




quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Uma data de coisas



Viagem curta

Sair de casa começa a ser uma extravagância minha. A última vez que saí, apanhei um comboio ao fim da manhã, onde, de pé, portadora dos mais recentes dissabores da idade: as dores na lombar (cruzes canhoto!), segui viagem acompanhada por um belo livrinho. O comboio estava cheio de gente, jovens essencialmente. Numa viagem que dura mais do que uma hora, eu era a única pessoa a ler.
 Angustiou-me, isto.

Passeio rápido

Fui ver uma exposição de dinossauros, perfeitamente por acaso. Andava à procura de uma casa-de-banho e entrei num museu. Vou continuar sem saber dizer os nomes dos dinossauros, mas fiquei contente por já se encontrarem museus por perfeito acaso. Quando saí, vi um mendigo a escarafunchar no lixo.
Angustiou-me, aquilo.

O ticket

Fui pagar uma quantia obscena de propinas a um instituto superior. Quando cheguei à tesouraria, havia muita gente, mas não havia propriamente uma fila organizada. Deixei-me ficar por uns instantes, até perceber que algures haveria uma daquelas geringonças que cospem senhas de atendimento. Perguntei a uma pessoa ao meu lado (aluno da instituição, certamente) que me respondeu: “yahh, mana, tens que ir ali ao fundo tirar o ticket.”
Hummm… Não sei bem o que me fez isto.


Transbordo

Depois de uma série de peripécias com o funcionamento do metro do Porto, que deve ser o menos intuitivo do mundo e o mais burguês também (talvez uma característica seja consequência da outra), lá consegui orientar-me no caminho de volta. Estava à espera do metro para a Póvoa do Varzim, só porque sim, quando me deparei com os dois adolescentes do outro lado da linha. Não sou perita em tribos urbanas (acho este conceito absolutamente estapafúrdio), mas tenho umas luzes sobre comportamento humano e devo dizer que criaturas daquela idade, que não alinham uma frase sem perturbar a gramática e que escarram para o chão a cada 20 segundos, não são merecedoras do gozo que estariam a ter a fumar aquela… cena.
Perturba-me, isto!

Viagem de regresso

Todo este dia foi acompanhado (salvo seja) por Mário de Carvalho, que se fosse um tipo ali do Porto escreveria comó caralho, assim escreve “apenas” impressionantemente bem, bela e cronicamente. Adestrou-me todo o dia e não se esquiva ao rótulo do melhor prosador da língua portuguesa vivo, «isto, claro, salvo erro ou omissão, melhor opinião e com a devida vénia.»
Agradou-me, isto.

Viagem por decreto

E por Mário de Carvalho: sei que não foi por decreto que, no preciso ano em que eu nasci, saiu do país. 40 anos depois, cá estou eu obrigada a fazer o mesmo, pelos motivos que todos conhecemos sobejamente. Emigro por decreto, portanto, e talvez tão contrariada como o Mário de Carvalho há 40 anos. Espero regressar em Abril. Levo sobre ele a vantagem de reconhecer, no calendário, o sinónimo de liberdade. Talvez preferisse que ela não saísse da rua, nem dos nossos corações nem dos dicionários, de onde Mário de Carvalho, esse resgatador de vocábulos, a pudesse recuperar para sempre.
Algo aqui me preocupa e outro tanto me entristece. Mas ainda espero…


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A espessura dos 40

Até já há o que contar, até já há o que esquecer, até já há o que                                                                                                   [lembrar].
Até já se foi palavra-corpo, palavra-bala, palavra-escudo
Brilho, sonho, astúcia, estupidez … Tudo!
E leram-se livros, ouviram-se discos, fizeram-se ícones e os melhores amigos!
Até já se foi cão, até já se foi cabra, sim, até já se foi bicho, até já se                                                                                           [foi bicha].
Até já se foi pai, até já se foi mãe, até já se foi filho e neto.
Até já se foi casa, grandes alicerces
Até já se foi chão, até já se foi tecto.
Até já se tem rugas, cãs e maleitas. Tem-se um ror de coisas feitas!
Aos 40 a gente aguenta
Mas até já se ganhou, até já se perdeu, até já se sofreu,
Até já se morreu.

E volta-se ao centro, como num jogo de bola
E vai e vira e gira e volta,
Roleta russa, sem revólver, com pistola

Ainda há o que contar, ainda há o que esquecer, ainda há o que                                                                                                   [lembrar]
Ainda há espessura, lustro, inteligência, bastante estupidez
                                                                 [que se chama insensatez]
Ainda há livros para ler, autores para citar - até já se pode escrever!
Ainda se é animal, lobo ou loba - essa espécie fatal!
Ainda se é pai e mãe e filho, vislumbram-se netos e um andarilho
Ainda há coisas feias, pedras nas mãos e telhados de vidro.
Ainda vêm mais rugas, cãs e maleitas, (quem sabe) carinho...
E tudo juntinho, contas bem-feitas:
Aos 40 há gente que assenta
Mas ainda há que ganhar, ainda há que perder, ainda há que sofrer,
Ainda há que viver…


Até já!

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Da vergonha e outros sentimentos coletivos


Não raras vezes, sinto vergonha por atitudes alheias: é o escarro no chão, é o trapaceiro na fila de trânsito, nos correios, nas repartições públicas, ou onde for; é o comentário despropositado, é a ironia perdida, é o literalismo cego, é o piropo bronco, é o “saloiísmo” agudo, é o pseudo-intelectualismo grave, é a falta de escrúpulos, é o avolumar e o aplauso massivo da vulgaridade, é a falta de vergonha na cara, é essencialmente, a falta de cara, de rosto, de bom gosto, de bom-tom, de bom-senso!
Os últimos labirintos excrescentes dos nossos representantes institucionais enchem-me de vergonha.
Tem-se extrapolado demasiado sobre a ameaça que representa a falta de sentido  democrático desses atores do vazio,  dos perigos da Europa a duas bitolas, da galvanização do poder da Alemanha sobre a Europa do sul. Fala-se muito de tudo, na verdade. Fala-se tanto, que nos esquecemos dos imensos silêncios incómodos de quem tem que forçosamente calar. 
Não se fala da vergonha porque a vergonha não se põe em textos, nem em imagens, nem nas bocas dos pleonásticos comentadores políticos, que não sabem o que isso é. E não se percebe globalmente que a vergonha é aquilo que se armazena na antecâmara do medo, esse glutão. 
Eu tenho vergonha da (boa?) reação dos mercados à política de continuidade do nada, do psi 20 em alta, dos indicadores macroeconómicos espremidos e organizados em trimestres, das contrações e rebentamentos d' água da zona Euro.

Eu tenho vergonha por esta gente que me representa, que faz que age, que faz que faz. Eu tenho vergonha na cara e apetece-me escarrá-la na cara deles. Eu tenho vergonha de ter vergonha e de vir a saber o que é o medo.

sábado, 15 de junho de 2013

A um ministro

Sr. Nuno Crato, o senhor parece-me um ressabiado. Terá lá o seu valor, terá estudado as suas matérias muito bem estudadas, terá feito isso à custa da palmatória, ter-lhe-ão exigido demasiado na infância e adolescência, terá comido o pão que o diabo amassou para chegar a “doutor”(espero bem que sim!), mas isso não lhe dá o direito de se vingar numa geração inteira!
De si, sei - por o ouvir dizer - que foi aluno do digníssimo professor Rómulo de Carvalho, e que isso terá sido uma benesse na sua aparentemente (até 2011) notável carreira. Mas logo aí se percebe a sua falta de sensibilidade: caramba, homem, não custava nada e punha-se a beneficiar também um pouco da sabedoria do António Gedeão, que isso não haveria de importunar o Rómulo! O maior mistério, para mim, é se terá optado por não o fazer, ou se tinha - já à altura - essa dificuldadezinha macabra da tortura (auto-tortura, também), essa teimosia, que insiste em confundir com determinação, essas olheiras de quem vive no ar a interpretar os corpos celestes, sem saber que é necessário misturar o ar e a terra para que a interpretação seja justa. Deixe-se de suspensões, Sr. Nuno Crato! Desça à terra para umas boas horas de sono e sonho (que o sonho comanda a vida, como deveria ter aprendido, se fosse esperto, se tivesse algum sentido de oportunidade e bom-senso), vai ver que a terra arrasta para si a força do pensamento e quem sabe o seu jeito para isso, malgrado as aparências, não se tenha esfumado por completo.
Vá lá, homem, digne-se a convocar em si alguma noção de respeito, se não for por outra razão, que seja pela ideia de que, pelo menos, o seu velho professor se possa orgulhar de si. E Olhe que o senhor parece não saber disto, mas um professor cheio de orgulho e feliz, é a maior garantia de qualidade de educação. É, é, Sr. Ministro, é...

Deixe-se de coisas, sim?!

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Eis um erro: A humanidade.


Leio o jornal, ou ponho o corpo à varanda, ou procuro o vento entre o cabelo revolto, ou perco a calma e praguejo sem motivo aparente, ou oiço a exaustão de vozes oprimidas, ou a exaustão das ondas na areia, ou sou a rouquidão dos dias exaustos, ou tropeço em pedras (essas sei que existem!), ou quero ser pedra de tanto ver gente, tanta gente sem saber que é pedra, tanto engano, tanto erro  – esse erro de que sou tantas partes…
 De todas as aprendizagens que fiz – e depois de tudo contado, verifico que me sobram dedos, embora isso não queira dizer que é pouco ou muito – aquela que prevalece acima de todas, que se destaca de qualquer pensamento, ou coisa de matéria ou de paixão é esta: a humanidade é um erro. Não é coisa boa nem má, não é longe nem perto, nem espaçosa, nem estreita, nem bela nem feia. Nem nada. Nem nem, que a alternativa ao nada é o vazio. É um erro! É um erro, a existência. É um erro, o ser. E é um logro a consciência do ser. Ou serão conscientes os calhaus?
A humanidade cuja missão suprema era a vida, morreu ao querer mais que viver.
Eu fui sempre pela vida e morri-me também. Vivo como um erro, como todos, cuidando que vivemos apenas com os nossos erros reconhecidos e apagados, ao lado dos erros dos outros.
Talvez deixe de ler jornais e ouvir relatos do mundo. Vou penhorar as horas vagas e lambuzar-me numa cuba de vinho.

Ou eu muito me engano ou, se arrependimento mata, Deus algum nos governa.