segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Mais do mesmo


 Não me cabe na cabeça que haja alguém satisfeito com o que se está a passar no meu país. Estávamos todos cá, antes do dia 15, mas nesse dia, todos vimos que despertar quem não está é possível. Muitos estivemos na rua em protesto, uns de cabeça mais perdida do que outros. Conheço gente que nunca esteve tão bem financeiramente e que estava lá também. Já não é verdade que só reclamamos quando nos vão ao bolso, já há consciência política e solidariedade e uma vontade de nação. A coisa cresce, finalmente, Abril chegou à vida adulta.
Não é preciso ser-se um génio para tirar conclusões sobre a insatisfação geral. Os génios fazem falta, isso sim, para nos tirar da situação em que nos encontramos. Levou-nos muito tempo para percebermos o que representa a representatividade política e não sabemos em quem confiar, mas sabemos já bastante bem em quem não se pode confiar.
 A vontade com que muita gente se julga salvar numa economia paralela não é apenas o exercício do “salve-se quem puder” é, isso sim, a prova de um profundo descrédito nas instituições. Ou alguém acredita que são apenas os bandidos, os facínoras, os políticos corruptos, os criminosos e os Xicos espertos que a fomentam? Pois digo-vos que há nisto muita gente honesta e que já todos os conceitos valem o seu oposto. E que tudo isto é desolador.
 Num cenário (pouco provável em meu torpe entender) de dissolução de parlamento e convocação de eleições antecipadas, será este Abril adulto digno da sua maturidade? Será capaz de, finalmente, saber fazer-se representar com dignidade e coerência? Ou irá continuar a lançar votos “seguros”, escondendo-se cobardemente atrás da esgotadíssima alternância democrática?
Há muito que deixei de acreditar. Há muito que o meu voto é branco. Se me voltarem a chamar, eu vou, mas, como nas últimas vezes, vou sem fé. Talvez só mais consciente do que aqueles que escolhem mais do mesmo.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Razões de sobra para isto dos livros


A propósito do último post e essencialmente para aqueles que estão a pensar: “ah, grande coisa, vender 600 livros num ano!”, tenho várias coisas a dizer:
Primeiro: é uma grande proeza, sim senhor, distribuir livros de uma escritora que nunca ninguém viu nem em revistas, nem em jornais, muito menos em televisões (sobre isto não me alongarei, pois tomo os escassos leitores deste espaço como pessoas razoavelmente inteligentes e bem informados ao ponto de perceberem o funcionamento do mercado livreiro neste país).
Segundo: Distribuir um livro sem editor e sem distribuidor é obra de gente movida a muita paciência, persistência, um travo de loucura e, essencialmente, amor - Aqui há de tudo isso em doses generosas.
Terceiro: Não há público leitor em Portugal. Há umas pessoas que leem uns livros e, essas pessoas e esses livros repetem-se muito. Nenhum dos supostos amantes de literatura deste país se atreve por uma leitura não referenciada.
Quarto: o meu livro só seria referenciado se eu fizesse aquelas coisas inauditas que as pessoas fazem para que os críticos gostem de os criticar. É sabido que eu não faço coisas inauditas. A única coisa que faço, em relação a isso dos livros, é escrever, com o intuito de, de vez em quando, escrever excepcionalmente bem. Mais do que isso é fastidioso.
Quinto: Se uma editora (daquelas a sério, como ainda há quem julgue existir em Portugal) tivesse editado o meu livro, seguramente, há mais de um ano que ele estaria fora de circulação e grande parte da edição poderia muito bem ser dada a abate.
Sexto: as livrarias portuguesas sofrem imenso com a falta de hábitos de leitura neste país. Eu tentei perceber como sobrevivem, tentei até ser solidária com elas ao dar-lhes o exclusivo desta edição (as grandes superfícies comerciais foram propositadamente excluídas da distribuição). Muitas não souberam apreciar o gesto, outras ganharam novo alento com a ideia, outras desapareceram a meio do processo. Eu, no fundo, não fiz mais do que saber de tudo isto por dentro.
Sétimo: os escritores portugueses não se importam de ser mal tratados. Não se importam com a miséria de direitos de autor que ganham ou não ganham, ou perdem, ou até nem sabem muito bem o que isso significa. Ganham dinheiro através da escrita, mas não necessariamente com aquilo que escrevem. E aceitam isso. E acham isso razoável. Acham aceitável autoproclamarem-se escritores porque fazem aparições em sítios, como aquelas pessoas dos reality shows. Seja como for, os escritores portugueses sofrem imenso com a falta de hábitos de leitura neste país, tal como os livreiros; quanto mais não seja porque amam os livros e porque é triste ver os que amamos votados à solidão e ao abandono.
Oitavo: “livros são papéis pintados com tinta”, quem não percebe a ironia contida neste verso, pode voltar a ler tudo de novo.

terça-feira, 8 de maio de 2012

intimidades de um anfíbio


 As pessoas que escrevem, escrevem sempre. Até quando lhes parece que o sangue não lhes corre nas veias, agem e sentem como répteis, a temperatura do corpo adapta-se à temperatura ambiente. O escritor foi buscar isso aos répteis: adapta-se às circunstâncias, porque sabe que o valor das palavras que conhece hoje é diferente amanhã, e a sua busca de entendimento do mundo está nas palavras. É preciso procurá-las.
A morte não é a pior coisa que nos acontece. As pessoas sabem muito bem que é assim.
Há nove meses, andava eu já mais esquecida do medo, por causa da besta negra que invadira a Luísa, e perco o Luís, aquele que me dava a maior garantia de que a morte estava longe e não vinha já. Vejo pessoas a escreverem logo a seguir ou durante as suas perdas e isso impressiona-me. Eu também o fiz, mas em certa medida obriguei-me a fazê-lo. A minha querida irmã, com outro sangue a correr-lhe nas veias e a uma nova fauna intersticial, também se pôs logo a trabalhar, pôs-se a andar na rua sem sentir as pernas e elas a levarem-na por caminhos e a passarem pelas pessoas, sem quebrarem, sem a deixarem cair. Os amigos do Luís soltaram as palavras que tinham dentro e isso também os foi mantendo de pé. Mostraram-se todos, sem saberem que o vemos nos rostos deles sempre que os encontramos e que isso nos dói, e que isso nos lava um pouco por dentro.
 Ando há nove meses furiosa com tudo e também com as palavras (bastante mais com as palavras que, afinal, não chegam para apaziguar coisa nenhuma). E ontem, no dia da mãe, quando me pus a ler um texto, que ando a escrever há já mais tempo que a evidência desta coisa muito feia que nos aconteceu, gostei tão pouco, que pensei: E se fosse mãe, poderia não gostar do meu filho? – Não sei. Talvez nunca saiba. Amar é uma opção e há muitas mães que optam por não amar. São, aliás, mais as que optam por não amar do que as que admitem não gostar. Talvez a vida fosse melhor se muitas mães admitissem não gostar dos seus filhos e seguissem, ainda assim, na sua opção de os amar.
Nove meses é normalmente um tempo bom, traz-nos memórias fecundas e doces. Nasceu uma criança (outras também, mas eu quero referir-me a esta), a Paula ficou grávida (outras mulheres engravidaram, mas eu quero referir-me a esta), o tempo continuou a gerar vida (e continuou a gerar morte, mas eu quero referir-me à vida). Ainda assim, estes nove meses foram um tempo mau.
Não gostei do texto ontem, provavelmente hoje já gosto mais e, até decidir que está acabado, irei continuar a promover o seu crescimento, conforme considerar justo. Livros não são filhos! Podemos acabá-los ou não, podemos ignorá-los e esquecê-los, rasgá-los ou apagá-los e até mostrá-los. Mas livros não são filhos, não senhor! – As pessoas sabem muito bem que é assim.
A morte não é a pior coisa que nos acontece – as pessoas sabem muito bem que é assim. – Mas a mim é. Quem escreve, escreve sempre. – Mas eu não. Eu ainda não aprendi nada com os répteis, e muito pouco com os peixes. 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Zurück bleiben, bitte!

Guardo esta frase, como uma das mais marcantes da língua alemã. Devo tê-la ouvido uma vez por cada dia que passei em Berlim. E isto não equivale a dizer que a tenha ouvido todos os dias, pois foram muitos os dias de temperaturas impraticáveis para a minha descida à rua, e muitos outros em que saía a pé ou de bicicleta, por isso, não usava o metro e não ouvia aquelas palavras.

A frase significa, algo como : “afaste-se, por favor” e é dita quando as portas do comboio se abrem para a entrada e saída de pessoas. (Coisas de cidades grandes). Sem perceber muito bem porquê, sempre me causou uma certa angústia. Agora, à distância, penso que percebo esse sentimento e que a minha primeira perceção desse enunciado era, afinal, a mais correta. “Zurück” significa “atrás” e “bleiben” ,“permanecer”. Quando ouvi aquela frase pela primeira vez, o conhecimento tacanho que tenho da língua alemã, pôs-se a fazer uma tradução literal da frase: “permaneça atrás, por favor”.

Nos últimos dias, esta frase e o irreprimível frémito de medo que me causava voltou a ecoar na minha cabeça. Sempre que Angela Merkel se refere ou se dirige aos gregos, é isto que oiço: “Zurück bleiben, bitte”, quando Vítor Gaspar se ajoelhou em frente ao seu homólogo alemão, Wolfgang Schaube, o que eu o ouvi dizer foi “zurück bleiben, bitte”, quando o “milagre económico alemão” é destacado do resto dos países europeus, através das demagógicas taxas de desemprego (que escondem, por exemplo, sete milhões de trabalhadores precários), o que eu oiço é isto: “Zurück bleiben, bitte”, quando vou ao multibanco, o bonequinho verde não sorri e diz “Zurück bleiben, bitte”, quando saio à rua e penso fazer qualquer coisa mais do que sair à rua, as ruas gritam: “zurück bleiben, bitte”...

De tanto ouvir isto, a minha mente vai ficando acamada nesse espaço remoto, onde já quase nada se alcança. E tenho medo, muito medo de permanecer atrás, como me tem sido indicado.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Moro onde começa a cidade

Moro onde começa a cidade

Vejo-a de cima

Debruçada na varanda.

Uma chusma de pregões dispersa

Sobe pelas fissuras das casas

Entra-me pelas narinas

Em aromas de salsa e coentros

Que sobram aos cestos cheios

Alinhados num chão pétreo.

Os infantes ciganos retesam-se nas tendas

Acima do frio e da bruma

Soltam aplausos às próprias palavras

chispadas pelo olhar agudo de um pai.

Acordo onde começa a cidade

Das igrejas manda-se o tempo passar

Sonoramente

A cada quarto de hora

Um galo canta até que seja meio-dia.

Piropos escorrem brutamente

Das bocas dos feirantes

Moças redondas escorregam torpemente.

Uma mãe passa por outra mãe

Perante o meu olhar que desperta

Sopesam-se

Tudo é som, cheiro e alimento.


Moro onde começa a cidade

Entre as mães

E a vida.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Tristeza mascavada

Chegou até mim sem ser chamada

E aqui foi ficando sempre serena

Tinha uma forma

Tão imperfeita

Tão mascavada

Coisa pequena, menosprezada

Tão imperfeita

Tão mascavada

Abraçou-se a mim, fez-me ter pena

E agora a tristeza que fez de mim leito

É refinada

Tão refinada

Que eu só quero de volta ao meu peito

Aquela tristeza das coisas pequenas

Tão imperfeita

Tão mascavada!