quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Remodelação arquitectónica nos Alpes suíços

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Meti a cabeça para espreitar a vida da minha amiga boneca de Sarjevo http://paulasarajevo.blogspot.com/ e dei com a frase: “continuam a enterrar os mortos…”Eu já tinha lido esse texto e já tinha sentido tudo.
Tudo, bem entendido, quer dizer tudo o que a frase e todo o contexto são (ou foram num dado momento) susceptíveis de me causar. Tudo é eu dizer isto de várias formas, sem que ninguém verdadeiramente perceba o que eu disse, muito menos o que eu terei sentido. Tudo, no contexto supracitado, significa moldar e mudar repetidamente com palavras e imagens pretensiosas aquilo que de facto interessa: os factos. E os factos são estes: continuam a enterrar os mortos da guerra dos Balcãs, em Srebrenica.
Ora, eu meti a cabeça, li a frase e afastei a cabeça… Tive um esgar, arrastei as covinhas da cara até às orelhas e pensei: “uiiii! Não quero ler isto!”. São tantos os dias em que afasto a cabeça, tapo os ouvidos e fecho os olhos sobre a realidade, que contá-los (para além de ser um exercício redutor e chato) seria quase perceber um certo autismo social. É verdade. E outra verdade é que me sinto mal por isto, aí um minuto por semana. No meu caso chega. Aliás, se intervir implica um mal-estar, que ele não seja duradouro! É que eu acredito que o mal-estar é contraproducente e, uma pessoa verdadeiramente interventiva precisa de tempo para observar, reflectir e alertar, como é óbvio.
Por esta altura, o assunto da minha amiga boneca já deve ter sido apagado da cabeça de quem lê isto. O mesmo efeito, e, nas devidas proporções, devem ter provocado os milhares de textos escritos em toda a Europa, por causa daquela ideia (como designá-la? Estapafúrdia (!) que os suíços tiveram ao referendar as construções dos minaretes. Eu, que sou sempre renitente em dar opinião sobre estas coisas da arquitectura, não quero demonstrar agrado, nem desagrado… Queria só alertar para o seguinte:
Isto para Portugal até pode não ser mau de todo! - E porquê? - Porque seguindo esse belo exemplo democrático da Suiça, cheira-me que não tardará muito a propor-se um referendo para a construção de um joelhometro nacional, a demolição de 5 ou 6 igrejas matrizes, que não interessam nem ao bispo de Braga, e seremos também questionados sobre a aprovação da ida ou não da ASAE para a Suíça, enquanto entidade reguladora dos minaretes domésticos, que seguramente, doravante, irão proliferar por lá. Supõe-se que cada multa ascenderá a um preço razoável para pagar todos os referendos imbecis que os estados hiper-mega-democráticos europeus decidam fazer, no futuro, e que os nossos cofres ficarão finalmente,cheios , à custa dos suiços. Mas… eu de arquitectura percebo pouco e de higienização cultural percebo menos ainda, graças a... Coiso!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Revisão recente a um amor fracassado

Nos dias em que não sinto dores no tornozelo

Lembro-me daquele rapaz e da minha mocidade

E de tantos momento para mim de zelo

E, para a minha mãe, pura leviandade!


Nos dias em que a artrose não me ataca

E me leva à cama ou me põe numa maca

É que me lembro daquele mancebo

De mãos ásperas e braços fortes

A medir-me as ancas, a gabar-me o porte

A tirar-me da cara o palminho que deus me deu

E a pôr-me no corpo, outro palminho bem seu.


Só nos dias em que a vesícula parece rebentar

É que me vem à cabeça aquele peito de pedra

Aquele moço de vigor e de saúde que medra

Aquele cortejar, adocicando-me a bílis

Uma espécie de selo que me dava forma

Um ex-líbris que o passado adorna

E foi antes, muito antes

Do reumatismo, das artroses ou das vesículas biliares

Que um dia o vi a ir pelos ares.


Lembro-me bem de como fugia

Qual acrofóbico a subir para as nuvens

De olhos fechados e sem se voltar

Segurando a mão de outra, todo contente

E eu feita em lágrimas e espasmos de dor

Néscia na vida, ignorando o amor

Julgava o corpo apenas doente.


Enrolando dias, desfiando histórias

A vida cresceu como um novelo

E num baile de boas e más memórias

Voltam-me as dores no tornozelo

Ocorre-me isto (e não é que goste):

Partir corações e andar de avião

Sempre se fez por meio tostão

Que fará agora, com tanta Low Cost!...

Poema rima com edema

Era domingo e abri o jornal

Procurei notícias

acto contínuo, nada cuidado

Pouco é tratado em Portugal.


Títulos amarelos a imitarem o sol

Alimentam-me a vista com colesterol

De página para página o corpo transforma-se

O peso não muda (vive na inércia)

É mesmo a massa de suposta constância

que altera a matéria em abundância.


Revolvo as páginas quase à porfia

A ver o que muda de dia p’ra dia

A lei não existe, o direito é marreco

A ignorância grassa de beco p’ra beco

A páginas tantas, lê-se uma prece

A este país que ainda amanhece

Mas logo um céptico ilude a matéria

E diz que se trata de doença venérea

O contágio alastra de forma imparável

E o céptico tem uma ideia que diz formidável:

Propõe um concurso de textos sem temas

e um mau discurso, cheio de edemas

Incho de ideias que não sei explicar

Arde-me a testa, tremem-me as mãos

E não consigo parar de rimar

Fecho o jornal, amarfanho o céptico

Meto à boca um antipirético.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Feliz aniversário, Vítor!


Faz hoje 40 anos.

É o que me dizem. Sei que não se trata de um boato, porque quem mo diz é a minha mãe, e entre nós não há espaço para rumores: tudo é directo como a descendência.

Há 40 anos (contou-me ainda há pouco a minha mãe) a eira estava tão cheia de milho como ela estava cheia de vida. A eira e o ventre de minha mãe tinham a missão de se esvaziar porque estava marcado nas nuvens que, a seguir, choveria. E a seguir, choveu.

São três acontecimentos desse dia 29 de Outubro de 1969 que estão bem presentes na memória da minha mãe (quando ela os enumera eu vejo a sucessão de imagens, como no cinema, e penso, com agravo, que não consigo ordenar o meu dia de ontem): o canastro encheu-se de espigas secas, a chuva caiu, como em tantos outros dias de Outono, e o meu irmão nasceu.

Há 40 anos eu sabia tanto como aquilo que se sabia de mim: nada.

Um ano depois, acendeu-se uma vela por cima de um bolo de laranja, o meu irmão de um ano soprou-lhe, empurrado pela minha irmã de quase dois anos.

(Na altura ser irmão e irmã era querer ter o mesmo espaço).

Não sei se havia espigas na eira, nem se choveu nesse dia, mas no ventre de minha mãe havia a esperança de outro irmão para os meus dois irmãos.

Há 39 anos eu esperava tanto como aquilo que se esperava de mim:nada.

Dois anos depois, suponho eu que, se entre a troca de fraldas, as colheradas de papa levadas a bocas alternadas dos três irmãos, a minha mãe teve tempo para cozinhar um bolo de laranja, os dois rapazes devem ter soprado às velas do bolo a uma só vez, vigiados de trás pela mana mais velha. Consigo imaginar que, neste quadro que câmara alguma registou, estes irmãos já percebiam que se tinham uns aos outros e que o mesmo espaço chegava para todos.

Há 38 anos eu tinha tanto como aquilo que se tinha de mim: nada.

Três anos depois (continuo a supor), a minha mãe acordou e olhou-se ao espelho. Estava magra e cansada, mas sorria, como a vida lhe ensinou que se fazia. Sorria como nunca desaprendeu. Sorria como ficou registado numa foto a preto e branco tirada uns tempos mais tarde. Sorria como a vejo fazer todos os dias (mesmo nos dias em que me esqueço de olhar para ela).

Nesse dia, ela e o meu pai saíram para o campo. (Devia ser mesmo muito cedo! Ainda as crianças não se ouviam).

Há 37 anos eu sentia tanto quanto o que se sentia por mim: nada.

Quatro anos mais tarde, a minha mãe era finalmente minha, o meu pai era finalmente meu, a minha irmã mais velha era a minha irmã mais velha, o meu irmão do meio era o meu irmão do meio e o meu irmão mais velho, olhava para mim entre quatro velas mal amanhadas em cima do bolo de laranja que a minha avó tinha preparado, minutos antes de me puxar para a luz.

Há 36 anos eu já era alguém, mas não tinha nome.

Por muito que tente meter o nariz nesse momento (que a minha mãe me descreve a rebentar de orgulho) das espigas que recolhia da eira para o canastro, no dia em que o meu irmão nasceu sem enfermeira, sem parteira e quase sem esforço, é-me impossível senti-lo. Mas deste outro dia em que eu já era alguém e todos pensavam que eu ainda não tinha nome, sei que, ao soprar as velas do bolo, sem ninguém o notar, o meu irmão mais velho fechou os olhos, encolheu os ombros e muito baixinho suspirou isto: raio de coincidência! Três dias mais tarde, mudaram-me o nome.

Faz hoje 40 anos não se sabia que esta coincidência se daria. Faz hoje 40 anos ninguém na minha família sabia o que isso era.

Foi exactamente há 36 anos que eu comecei a coincidir com a vida, onde muita gente já estava. Por uma feliz coincidência (e algum engenho dos nossos pais) também já cá estava o Vítor.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

o lume por companhia



O lume por companhia.

Ao lado, numa banca de cozinha, a caneca de leite quente espera que ela lhe deposite o pão velho de dois dias. A lareira a sussurrar rancores, que espalha pela cozinha toda. O pão cai e levanta-se molhado, pesado, para dentro e para fora da caneca de barro esmurrada. O lume por companhia, vigia isto à distância. E ela ganha a ilusão do pensamento. Ganha a ilusão da partilha.

De pé, encostada à banca, vai processando esse ritual simples de despedir a rotina da fome. A labareda a prometer que dura. Antes do Outono tudo é silêncio. É o que ela pensa, enquanto, come o seu pão ensopado de leite quente, e conversa com o lume, esse interlocutor de conversas crípticas e de voz apaziguadora. Quem a visse assim, neste cenário que recebe o frio, julgá-la-ia triste. Mas não. Sente-se vitoriosa e quente. Sente-se parte da labareda: sabe que as histórias que lhe conta em segredo a alimentam tanto como as achas de videira rachada e seca, que a poda lhe ofereceu.

Um telemóvel impacienta-se dentro da bolsa, em cima de mesa. O pão ensopado de leite pára, por segundos, a meio caminho da caneca e da boca. O telemóvel não se cala. O pão chega à boca, como nas vezes anteriores, sem dúvidas de que vai perder peso.

O telefone cala-se.

É sexta-feira, acabaram-se vários dias nos últimos minutos. Não tem planos para amanhã. Nem para hoje. Nunca faz planos. Aproxima-se da lareira, oferece-lhe mais uma acha. Senta-se, sabendo que numa cidade, não muito longe dali, há gente impaciente numa fila de trânsito. Gente que faz planos todos os dias.

Adormece com o abanico na mão e o lume por companhia.


Errata: onde antes se leu "axa", deve ler-se "acha", porque o Camilo acha e eu estou de acordo. A ortografia é um feixe de acordos, afinal. Fica o erro assumido. Para a próxima, escrevo "canhota", como me ensinaram a dizer:)