quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Berlin revisited (part 2)



Actualização: 10:08h.



Desci as escadas e fui buscar a Steffi à garagem. Um vizinho lia um livro, sentado à soleira de uma das portas, disse-lhe bom dia e ele não respondeu. Tinha um gorro na cabeça, o que me lembrou que estava frio e arrepiei-me.

Desci para a Karl-Marx-Strasse por uma rua diferente do habitual, porque esta não tinha paralelo (querendo com isto falar da pedra e não estabelecer uma comparação qualquer com outra rua) e hoje me esqueci de pôr os calções de ciclista, que, parecendo que não, sempre vai protegendo algumas das partes que assentam no selim.

Karl-Marx está menos povoada do que o costume. Há obras e vêem-se alguns trabalhadores a mexer em gruas, todos vestidos de laranja com listas cinzentas, que na escuridão devem tornar-se reflectoras. A minha Steffi cruza-se com algumas bicicletas amarelas, com umas aplicações especiais (à frente e atrás) para suportar grandes sacos rectangulares também amarelos (bonita cor), o que quer dizer que ali vão os carteiros.

Entro no Hof do Kino "passage", porque quero experimentar o café do café da ópera, que é muito bonito. Mas está fechado. Só abre às três da tarde, dizia um recado pendurado na porta. Voltarei mais tarde, devo ter pensado. Atravessei a passagem para o outro lado e quando cheguei à outra rua começou a chover, uma chuva muito, mas muito gelada, como se o Inverno estivesse a instalar-se, ainda. Sorri por ter posto luvas e voltei a sorrir, porque se cruzou comigo uma personagem que eu já tinha visto antes, com uma cabeleira com cerca de meio metro de altura (e juro que não é exagero!), cabelo encaracolado, assim uma espécie de caricatura de outra caricatura do Marco Paulo dos tempos que já lá vão. Sorri muito mais, porque as pessoas paravam a olhar e riam também, coisa muito estranha nesta cidade que tem habitualmente o estigma do Entroncamento, mas só no que toca à imagem.

Perdi-me ali por ruelas, para ir dar ao início da Karl-Marx-Strasse. Fiz a rua toda e passei por uma rapariga, que lia um livro, enquanto caminhava, vi que era o fim de um capítulo e tive inveja dela. Do outro lado da rua ia outra rapariga de bicicleta com um livro nas mãos que não queriam estar livres e invejei outra vez, mas só a capacidade de equilíbrio, porque o que tinha nas mãos era um mapa e não um livro.

Fechei os olhos meio segundo e fingi que tirava as mãos do guiador. Quando cheguei a Hermmanplatz surpreendi-me por já ali estar. A chuva e o selim começavam a moer-me. Ainda pensei em enfiar-me no metro, mas só porque pensei na subida que ia da Hermannplatz até à Boddinstrasse e, de repente, faltavam-me forças. Mas não, apetecia-me mais ar, hoje não estou para fazer de toupeira. Quando pedalava, nessa subida, lembrei-me do cinema antigo que há ali por perto e tive mais forças para pedalar até lá. O pensamento foi bom e rápido e vieram outros e, quando me voltei a lembrar disto, já passavam uns bons 500 metros do cinema. Não voltei para trás. Nem pensei em tal coisa. "Siga, siga, siga", três vezes, como diria a minha irmã. Fiz a Hermannstrasse até à esquina com a minha rua, entrei no Kaisers e comprei uns legumes para fazer uma sopa, que me estava mesmo a apetecer (às 10 da manhã). Uma courgette, tomates, um alho francês, um pimento laranja, cenouras, (batatas tenho, não preciso)… e agora me vem à ideia que não trouxe repolho, que pena! Cheguei à caixa, coloquei as coisas, procurei a carteira e… não a encontrei. "Dinheiro ca tem", pensei e quase dizia. Vá lá, tive tempo de dizer: "Moment, bitte, ich habe kein Geld. Ich muss zurück nach Hause… Es ist nur ein klein moment", ou qualquer coisa assim, que não traduzo, porque se está mesmo a ver que eu queria dizer era "é só um instantinho", que era o que aquilo era, um instante, um pequeno momento (coisa mais linda!), que se lixe quem diz que não quer só momentos, eu cá só quero instantes assim, sempre! Deixei as compras lá a um canto e fui e vim de Steffi, que foi um tirinho de espingarda.

Na volta, fiz a rua pelo passeio e atrevi-me a passar debaixo de uns taipais de obras. Um velho arrumou-se para eu passar e eu agradeci e disse-lhe "Hallo", no meio de um sorriso, porque era o mesmo velho que no sábado nos veio dizer (a mim e ao Daniel, enquanto trocávamos os pneus de Inverno do carro dele), que o Inverno em Berlim ainda não tinha acabado e que era uma tolice estar a mudar já de pneus. Mal sabia eu que teria que lhe dar razão.

De bicicleta, até ao 53 da Emser Str. vai-se muito mais rápido e, quando dei por mim já tinha passado. Voltei para trás e quando procurava as chaves, a porta abriu-se. Um jovem casal saía do meu prédio: ela à frente com embrulhos, ele atrás com o bebé ao colo, segurava a porta para eu entrar. Agradeci, sorri, disse: "tenham um bom dia!" e deixei cair a cesta das compras. Apanhei tudo lentamente, enquanto o homem segurava a porta e sorria. Ao chegar à garagem, pensei no vizinho do gorro que já lá não estava. Passei o aloquete na Steffi, agarrei nas compras e, quando ainda pensava no vizinho do gorro, ele apareceu-me pela frente. Mudou de soleira. Estava abrigado. Continuava a ler. E mantinha-se de gorro. Não lhe disse nada, quando ele olhou para mim, mas, coisa tão entranhada em mim, sorri.

Agora, vou tentar escrever. (Pensamento mais patético, se já tanto escrevi hoje!) e estou ansiosa que chegue a parte da tarde, depois da sopa, depois da escrita. Irei pedalar até a Oranianstrasse e encontrar-me com o Pedro e comprar a viagem para a Suíça, onde vou, entre outras coisas, sentir o cheiro da família, que já me faz falta. Hei-de ver o meu email e enviar isto a algumas pessoas. Certamente, terei um email do meu editor (coisa estranha de ter como meu!) com quem tenho andado a comunicar regularmente, e, seguramente, irei sorrir muito, ainda (ou não, que os sorrisos só se costumam pôr em rostos de pessoas que nos são reais). Um abraço (com dois braços)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Berlin revisited (part 1)



São 8 horas e dezanove minutos da manhã do dia 14 de Abril de 2008. Antes de escrever "Abril" tive que pensar muito. Acordei há cerca de três horas e, depois de algumas tentativas frustradas em tentar dormir, decidi levantar-me e caminhar devagar com o dia.

Sair para a rua às 6 da manhã, quando o dia ainda cheira a pão fresco, é das melhores coisas que se pode fazer em Neuköln. Faço a Emser str. até desembocar na Hermanstrasse, mas não totalmente, viro logo à direita para ir à Backerei (padaria, que isto os nomes de sobrevivência aprendem-se na língua local) das únicas alemãs que se atrevem a ter um estabelecimento, por estas bandas e que nem sequer são simpáticas, mas têm uns belos croissants e pão fresquinho. Compro dois croissants e dois pães, porque somos dois lá em casa e há quem cultive o gosto da simetria. Paro no turco que tem uma Tante-Ema-Laden (aprendi esta há pouco tempo e já é das minhas palavras favoritas, literalmente quer dizer a Loja da tia Ema, vulgo "mercearia"), procuro o leite, encontro, espero que apareça alguém. Não há sinal de gente viva! Olho para as prateleiras que fazem lembrar a mercearia do meu avô, quando eu chuchava no dedo em 1976 e, para além das sardinhas em lata e do atum, bato os olhos com latas de vários tamanhos de leite NIDO, que para além da infância também me faz lembrar África. E o caprisone, que anda a rodos nesta terra; aqui, na mercearia do turco (como se dirá “mercearia” em turco?), foi substituído por um sumo de laranja com legendas em árabe, o que me provocou o seguinte pensamento simples (que isto a esta hora não há que complicar muito): Marrocos, Marrocos, Marrocos… à medida que pensava "Marrocos" ia sorrindo na mercearia do turco e, sem me aperceber, já estava a sorrir para o turco, que meio atabalhoado calçava, ainda, as meias, trocando ora os pés, ora as meias. A baralhação era tanta que até eu trocava os olhos e ria muito por dentro, até quase rebentar.

Voltei a casa, fiz uma meia-de-leite e comi um croissant com queijo. O rouxinol cá de casa levantou-se e surpreendeu-se com a minha inesperada velocidade matutina. Trocámos bons-dias, sabendo de antemão que o dia estava para ser bom. Entre sorrisos e palavras trocadas, tínhamos, ainda, tempo para ir lendo os despojos de jornais em cima da mesa da cozinha. Eu li uma crónica inteira da revista do "Die Zeit", onde se falava de livros e de uma forma particular de organizar bibliotecas pessoais. O autor da crónica advogava que a sua biblioteca pessoal era tanto mais rica, quanto mais livros conseguia pôr de parte. O Daniel concorda com ele, a mim faz-me confusão ver-me livre de livros… mas talvez também concorde que podemos fomentar a qualidade de uma biblioteca, sabendo com exactidão o que conservar nas prateleiras.

Ele saiu e eu pus-me a escrever esta nota, deste dia, que ainda mal começou e já me fez sentir bem. De seguida, vou descer, pegar na minha Steffi (nome de baptismo da minha bicicleta) e vou pedalar até à Karl-Marx-Strasse e ver como fervilha esta pequena Istambul a horas de pegar o dia. Se tiver tempo e vontade, venho cá dizer a que horas o larguei.

Um bom dia a todos!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Palavras que despertam

Acordei estremunhada sem saber se isto era coisa que nos acontecesse, quando já somos adultos. Acho que desde os dez anos que não dizia esta palavra. É incrível como nos esquecemos da existência das palavras e depois, quando as redescobrimos é como voltar a ver um amigo de infância: agarramo-nos a elas e andamos por ali uns tempos a abusar dos sorrisos que nos provocam, só de lembrar! Apesar de isto que escrevo ser um estremunho, acho que foi a palavra “estremunhada” que me despertou hoje.

Assim atentemos nos meus passos de hoje (questões higiénicas à parte), antes de verdadeiramente acordar: Li um texto da Paula (não, não é essa nem a outra. É outra) sobre a oscilação dos dígitos de amigos no facebook e, apesar da graça que senti invadir-me (e das saudades), não conseguiu acordar em condições. Depois, fui ver as estatísticas de visitas a este blogue e surpreendi-me com o número de visitas, sobretudo, na Tailândia e na Sérvia. Foram os dígitos que me surpreenderam, não foi o simples facto de alguém na Sérvia ou na Tailândia, (lugares onde nunca estive e com os quais não tenho qualquer relação) ir calhar ao meu blogue por mais do que um dígito de vezes. Eu nunca tinha feito isto, nem sabia como fazê-lo, e apesar de ter sido um momento agradável, também não conseguiu recuperar-me ao estremunho.

Hoje despertei-me a mim própria ao pronunciar uma palavra, que usei enquanto explicava à Paula (sim, a essa!) que estava estremunhada. – E era efectivamente assim que eu estava. Fiquei contente, essencialmente, porque há palavras que ainda me despertam. Por isso, vou ali escrever coisas a sério.

Bom dia a todos os estremunhados e também aos que costumam dizer que nunca dormem e raramente têm sono!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Poema para Adriana

Adriana é um dia de semana.

Grande coisa para se ser, pensam uns

E por que não será a semana toda, perguntam outros

Já que a pões num poema, dá-lhe o tempo todo

Resmunga o Zé a um canto

Eu, que da Adriana devia apenas pensar o nome

Atrevi-me hoje a escrevê-lo

Como se o nome fosse um dia inteiro

E sei que ao ser um dia inteiro

Adriana parece mais do que se for apenas um dia da semana

Que é o que ela é.

E aqui, aqueles que escarneceram da importância de se ser um dia da semana,

(De se ser Adriana

De se ser um dia à escolha, de domingo a sábado

De se ser e de se ter escolha sobre todo um dia)

Já percebem que o seu escarnecer era incompreensão e inveja

Todos menos um

Que não tem nenhum desses alcances

Nem o da incompreensão

Nem o da inveja

De Adriana

O Zé dá-lhe o tempo todo

Eu posso apenas dar-lhe um poema

Que vale o que vale

Mas é inteiro

Como um dia da semana

Como Adriana.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Conto de Natal # par

A menina cujos lábios eram sombras adormeceu.

Passou-se o tempo, no seu sono, e com o tempo, pessoas, lugares onde foram inscritos factos, e corações se estilhaçaram.

“Um dia, acordarei”, pensou, antes da preparação metódica da hibernação. “Acordarei, quando o sol tiver a força de aquecer os corações”

Passou-se o frio, no seu sono, e com o frio, pessoas deram abraços, lugares onde se reuniram e interceptaram estilhaços, promessas foram cumpridas, outras adiadas.

“Um dia, acordarei”, inscreveu no lugar cimeiro da lista prioritária de sonhos. “Acordarei, sobre a memória vazia da dor”.

Passou-se a dor, no seu sono, e com a dor, foram-se as pessoas, os lugares ermos da sua memória, as cicatrizes de outros órgãos vitais, outrora estilhaçados.

“Um dia, acordarei”, trauteou na melodia mais bela da sua infância. “Acordarei ao som da mais bela música jamais imaginada”.

Passou-se a música, no seu sono, e com a música, pessoas calaram, vozes intumesceram lugares desertos, versos com veneno apagaram os seus sonhos…

A menina cujos lábios eram sombras acordou, finalmente, numa noite fria de Inverno, olhos cerrados sobre incompreensão destas palavras:

It takes two to climb the mountain

Only one to make its way down.

A menina cujos lábios eram sombras quis gritar, quis subir a montanha… mas agora, depois de terminado o seu imperioso sono, deu-se conta de que os seus lábios sombra eram o espelho de outros lábios que a impediam de falar, de gritar, de beijar. E ali, na parte mais funda da montanha, percebeu os versos do seu despertar:

It takes two to climb the mountain

Only one to make its way down.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Coisa verde

Íamos todos quantos fossemos juntos, por esses dias. Muníamo-nos de cestos, baldes ou pequenos sacos de plástico, pás, enxadas, ou tudo o que fosse digno de mostrar serviço. Era a operação de maior responsabilidade de toda a composição do presépio, por isso, havia sempre um adulto por perto - normalmente, era o nosso tio mais cool (palavra e conceito que, à altura, desconhecíamos, mas que agora, coisas bem vistas, define o meu tio mais novo, que usava barba ou bigode de abas ao alto, boina camuflada e tinha uma colecção de cassetes com cânticos alentejanos, sendo, por isso, entre sussurros e cochichos de velhos e velhas reaccionários (ou simplesmente ignorantes), o maior comunista das redondezas).

Suponhamos que chovia (porque de todas as memórias que me ocorrem, efectivamente, chovia), e se assim fosse, era sabido que os sacos de plástico seriam cortados ao meio e cada um o enfiava na cabeça, a servir de capa. Ríamo-nos todos do meu tio, porque ele só cobria a cabeça, enquanto nós ficávamos protegidos até meio da perna, mais ou menos. Eventualmente, chegávamos à mata de pinheiros, carvalhos e muitos penedos cobertos de musgo. Corríamos a escolher o maior e começávamos a despi-los, lentamente, de forma a que as largas camadas saíssem o mais amplas e homogéneas possível. A chuva caía e enrugava-nos os dedos miúdos, mas o nosso entusiasmo não diminuía, por causa disso.

As camadas de musgo verde e pesado sobrepunham-se, primeiro nos recipientes mais largos, que o tio Zé carregaria, ficando os torrões mais desfeitos para os nossos recipientes, que eram muito mais pequenos e desinteressantes. No regresso a casa, todos conseguíamos antecipar a qualidade das planícies e montanhas que aquela colheita de musgo iria proporcionar ao presépio desse ano. E ninguém tinha dúvidas que esse seria o melhor de sempre!

Há dias, passava ao largo de um mercado em Braga e reparei numa vendedeira, sentada atrás de uns pequenos recipientes cheios de... uma coisa verde. Como conduzia, perguntei à pessoa que ia ao meu lado que me confirmasse, se aquilo era musgo. O tom inexpressivo com que ela disse: “sim, é”, levou-me a camuflar o meu espanto com a normalidade do diálogo: “ E como o vendem?”; e ela: “ ao quilo”. E eu, que me lembrei do meu tio comunista e do cheiro da terra que o musgo levanta, e da pedra nua que a chuva tornaria mais limpa, e do cheiro dos pinheiros e de como escorregávamos na garvalha (que fora do Minho é caruma, mas com outro cheiro), eu que me lembrei que o meu Natal não é meu: é nosso. Eu, que sei que esta pluralidade vem do fundo do tempo (do meu tempo), estiquei o sorriso de incompreensão ao cúmulo da gargalhada e disse, como se tivesse toda a sabedoria do mundo reunida no peito: “mas… não é assim que se colhe o musgo”.

Não adianta de muito descrever o rosto ignorante da minha amiga, porque no meio do seu silêncio estupefacto, percebia-se, que nunca lhe ocorrera, que o musgo, como todas as coisas que nos tornam felizes, também se colhe. Sinto que lhe devo estas memórias de infância, que é onde se reúne toda a sabedoria do mundo ou onde se aprende a colheita da felicidade.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Manhã

Desperto com metáforas nas mãos

Amarfanhadas, enrugadas, envergonhadas

(as metáforas, não as mãos)

Água corrente, espelho partido, sabão

Rotina limpa-retinas

Castigando-me com a visão

A toalha que enxuga o rosto

É a mesma de ontem e do dia anterior

Não secou

Que dia lhe sustentará o interior húmido?

Adiciono-lhe as dúvidas de hoje

Devolvo-a ao varão.

Despejo três adjectivos no saco do pão

Velho duro sensaborão

Levo ao lume a cafeteira com pó para dois

Revela-se um aroma lógico no ar da cozinha

Ocorre-me: Será de ti? É do café, pois

Nós existimos, sem argumentos

Enfias as mãos - metáforas lógicas - no saco do pão

Tiras as dúvidas:

Queimas as palavras

E torras o pão.