segunda-feira, 7 de junho de 2010

Estado Geral de Cumplicidade

Sei cá de uma história em que

Um jovem lavava os pés

E encontrava o seu primeiro amor

(Descalço)

Encontrava o seu único amor.

Os sapatos que um dia viu numa cena de um filme

(em que um piano ardia)

Nunca se lhe ajustaram à vista

Nunca se lhe ajustarão aos pés

Esses pés limpos que sempre caminharam

Nus

Ajustados ao chão que pisavam livremente.

Eu, que até uso botas e lhes mudo as solas

E que em criança encomendava sandálias a um sapateiro mentiroso

(o mesmo que, no couro, cosia bolas)

Também trago os pés limpos, rentes ao chão

E sei de cenas de filmes em que ardem pianos.

Parece pouca cumplicidade, mas não

Sou tão cúmplice e responsável com pés limpos

Como com esta luva que me esconde a mão

Onde grita o medo e a opressão

Dos que vivem ali, naquela longa Faixa

Afastando dia-a-dia os escombros que foram casa

Aturando a perfídia de altos fazedores de luvas

Que escondem o sangue das mãos e esmagam Gaza.

Sou cúmplice porque me calo e cúmplice porque falo.

Tenho um certo estado de felicidade

É verdade.

Mas isso não me iliba de cumplicidade.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Eyjafjallajökull nos abençoe

Acordava quando ouvia passos que faziam ranger o soalho e sentia o odor de cevada acabada de fazer. Ninguém chamava o meu nome. Levantava-me como quem já tinha saudades de ver gente, mas esgueirava-me para a casa de banho, a trouxe-mouxe, na esperança de não encontrar nenhum dos adultos, antes do inevitável alívio matinal. Nunca o disse a ninguém, mas aquilo de pedir a bênção, antes de fazer o primeiro chichi, não me caía bem. Não que aquilo representasse o que eles queriam que aquilo representasse, se é que eles percebiam a representação do gesto. Se encontrava o meu avô no corredor, jamais me poderia fazer de impedida: ele articulava-se em estátua e esculpia no rosto as rugas de uma severidade inultrapassável. Eu fingia que o que dizia, quando lhe pedia a bênção, era “bom dia”, esperava que ele me depositasse a mão pesada na cabeça e no seu lacónico “Deus te abençoe” (nunca o disse a ninguém!) sentia o dia romper.

A minha educação está cheia de silêncios transformados e entusiasmos abafados. Sempre ouvi mais, muito mais, do que falei. Ainda hoje vivo assim: num indecifrável limbo de tolerância, paciência e silêncio.

Sei que ninguém mo proporá, mas se me fosse dado o desafio de me apartar da minha formação religiosa católica profunda, tenho a certeza que aquilo que sou hoje ficaria irremediavelmente fragilizado. À cabeça dessa fragilidade, não tenho dúvidas em colocar o sem número de exercícios diários que me consumiam, mas também construíam a paciência. A saber: Acordar cedo para ir para a escola, ou acordar cedo para ir para o campo, ou acordar cedo para ir à missa, ou acordar cedo para ir à catequese, ou acordar cedo para ir levar o leite ao posto do leite, ou acordar cedo para ordenhar as vacas, ou acordar cedo ao sabor de hóstias bafientas, ou acordar cedo porque isso era uma coisa normal de se fazer e não havia nada que interessasse que me permitisse ficar na cama, a não ser a vontade ou o cansaço, ou esse facto peripatético de me fazer criança. As alvoradas eram obrigatórias e nunca me agradavam: “paciência!”, diziam eles, “tem que ser”.

Ora, era essencialmente neste ponto que a paciência se esgotava e era aí que eu tinha um dos meus momentos, em que me ensinaram as dialécticas Obediência/Desobediência; Medo/Atrevimento e Culpa/Pecado, tudo pilares maiores da formação católica, e grosso modo exemplos soberbos de toda uma gigantesca lógica de hipocrisia, onde assenta, na verdade, a lógica das religiões, e por arrastamento grande parte da lógica e dos valores sociais, que vão imperando um pouco em todas as culturas. Felizmente, consegui, a muito custo, transformar esses conceitos, reciclando-os em ideias sustentáveis e vivas: Ouvir com rebeldia; Respeitar com ideias próprias; Tolerar integrando.

Tenho dificuldades em explicar por que não abomino toda a minha formação católica, tamanha é a sua falta de coerência. Mas a verdade é que apesar de me terem impingido insistentemente o conceito de culpa, melhor do que qualquer outro, não me sinto culpada, nem com poder de culpar. E sinto-me ainda mais impotente para o fazer, quando olho para a actualidade e verifico a enorme agitação social que vive o nosso país, em torno desta lista de acontecimentos: o Benfica ganhou um campeonato de futebol e o papa está de visita oficial ao nosso país; O Benfica é campeão e o papa anda de papa-móvel. O Benfica visitou o papa e o papa escreveu uma frase num livro. O Benfica quer ser campeão para o ano e o papa vai a Fátima à manha (no dizer do próprio); Os adeptos do Benfica inundaram o Marquês e os fervorosos seguidores do papa são também adeptos do Benfica e inundaram a Praça do Comércio; Jesus guiou o Benfica à vitória e o papa tem um motorista que o guia no papa-móvel, apesar disso, o papa lidera o campeonato de feriados excepcionais e leva um ponto de avanço sobre o Benfica.

Mesmo que quisesse (e soubesse) falar de finanças ou de economia e educação ninguém me iria prestar atenção. Por isso, a listagem de acontecimentos relevantes para o país esgota-se aqui. E não me censurem, que eu bem sei que há por aí muito boa gente dita laica e ateia a aprender a rezar para que o eyjafjallajökull nos abençoe, isolando-nos com o seu desassossego e nos mantenha esta chama ardente na fé ou no Benfica. Tanto faz.

domingo, 25 de abril de 2010

Bom dia, Liberdade!

Olhavam para o sol e viam-no nascer todas as manhãs. Viam como a luz incidia sobre as coisas e as iluminava e pensavam, sempre pensaram, que estava tudo bem, que estavam a ver. Primaveras e Verões sucederam-se com o sol a ser mais do que rei. A ser pai, mãe e alimento, a ser conforto para os pés descalços, a ser o único abraço e o único mimo de crianças muito tristes, que não sabiam ainda que eram tristes, não sabiam ainda sorrir. Crianças que confundiam o gesto de um mimo com o de um bofetão e que se afastavam, que andavam sempre a afastar-se, andavam ao lado umas das outras com medo de se tocarem, andavam ao lado de si mesmas, sem se olharem. Sabiam que havia luz e que isso era bom porque não tropeçavam nas pedras do caminho para a escola, e não sabiam nada sobre essas pedras, não sabiam nada sobre esses pés.

Era Primavera, a seguir vinha o Verão, assim lhes ensinara o mestre-escola. Os dias iam crescendo, enchiam-se de luz e calor e tudo parecia sarar: as chagas dos pés fechavam, a pele enrijecia e ficava mais fresca, a água fria das fontes sabia melhor nos lábios e no resto do corpo, os cabelos andavam mais asseados, as marcas da palmatória cicatrizavam mais rapidamente. Todos pareciam felizes e, caso alguém tivesse a ideia de os questionar sobre isso, todos diriam que sim, que estavam contentes. Nenhum deles teria dúvidas em distinguir o Verão do Inverno, porque todos passavam pelo Verão e pelo Inverno, porque lhes ensinaram as estações do ano e, ao passarem por elas, todos as reconheciam, como reconheceriam a alegria e a liberdade, se lhes tivessem ensinado a alegria e a liberdade. Porque essas são coisas que obedecem a um percurso e há que fazê-lo par o conhecer, para o reconhecer.

Hoje é Primavera e o Verão não tarda. Sei disto, porque alguém me ensinou esses nomes e eu repito-os, tenho-os repetido toda a vida. Tenho repetido as estações e os seus nomes e não me canso. Tenho repetido a palavra amor, tenho conjugado verbos com pessoas, tenho repetido a palavra liberdade. E não me canso. Não me canso de repetir essas palavras e de as percorrer em voltas e rumos diversos: sei que a luz que incide sobre elas no Verão é a mesma que incidirá no Inverno, porque essa luz emana de dentro de mim e, quando sai para iluminar as coisas mais ou menos sensíveis do mundo, sai para me libertar.

Sei da importância da luz tanto e tão bem como eles (os que não distinguiam a luz do sol da luz de um olhar feliz) sabiam. E por isso, não me sai esta ideia da cabeça: se não fossemos um país de tanto sol, se os Invernos fossem ainda mais rigorosos e mais longos, e o sol não aparecesse tanto para encandear olhares e afagar as almas em revolta… Não seríamos livres há mais tempo?

Não queria fazer isto, sei que é um álibi tonto, mas posso (só hoje!) imputar as culpas ao sol? Amanhã, ele brilhará outra vez, para me ensinar coisas abertas sobre a liberdade, para me ensinar que a culpa não existe. E, ao acumular aprendizagens debaixo desta luz quente, sei que nunca me hei-de cansar de ter luz, nunca me hei-de cansar de ser livre e de despertar diariamente neste diálogo:

- Bom dia, gente livre!

- Bom dia, Liberdade!

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Breve nota sobre os dias

Abria os olhos e via que lhe aconteciam coisas extraordinárias por esses dias. Via que era Primavera e que o sol brilhava e afagava as árvores e as flores, tanto nos canteiros de uma casa feliz, como nas avenidas de uma cidade cinzenta. Via pessoas a passarem ao seu lado na rua e sabia que tanto iam alegres como tristes, tanto caminhavam sabendo que caminhavam, como levitavam, aparentando simplesmente caminhar. Via gente que passava e gente que olhava. Gente que parava, por vezes, fincando as mãos em ombros ou noutras mãos. Lágrimas nas mãos de amantes que se despediam, ou o sorriso do homem que plastificava documentos, no cimo de uma avenida.

Tudo isto lhe parecia extraordinário.

Via que o sorriso do funcionário das finanças estava a crédito no dentista e que a colega dele há muito que esqueceu a cor do seu cabelo. Via os ombros resignados dos funcionários noutra repartição pública, e sabia que o tempo que ia ali gastar tinha que lhe chegar, e, de facto, verificava que quando esse tempo acabava lhe tinha chegado. Via que o tempo lhe era sempre útil. E já não parecia que o gastava, como ao dinheiro. Via que essa ligação do tempo ao dinheiro é responsável pelo declínio das coisas humanas. Pelo menos das coisas humanas que lhe interessam a ela, e

Fechava os olhos e via que lhe aconteciam coisas extraordinárias nesses dias. Via que caminhava em direcção ao centro da vida, tanto pelo ritmo cardíaco acelerado e pela respiração apressada, como pela suavidade desses ritmos. Nesses dias, abrir e fechar os olhos na constância de um sorriso parecia-lhe a única coisa extraordinária de toda a sua existência. E era-o, de facto: não tinha que se sentar e escrever para pensar sobre isso. Não tinha que correr para acompanhar o mais veloz dos pensamentos. Não tinha que sonhar para ter o que queria. Não tinha que nada: Pensar é estar aqui, correr é estar aqui, sonhar é estar aqui. Via isto, enquanto existia. E existir, por esses dias, era uma coisa extraordinária.