sexta-feira, 16 de abril de 2010

Breve nota sobre os dias

Abria os olhos e via que lhe aconteciam coisas extraordinárias por esses dias. Via que era Primavera e que o sol brilhava e afagava as árvores e as flores, tanto nos canteiros de uma casa feliz, como nas avenidas de uma cidade cinzenta. Via pessoas a passarem ao seu lado na rua e sabia que tanto iam alegres como tristes, tanto caminhavam sabendo que caminhavam, como levitavam, aparentando simplesmente caminhar. Via gente que passava e gente que olhava. Gente que parava, por vezes, fincando as mãos em ombros ou noutras mãos. Lágrimas nas mãos de amantes que se despediam, ou o sorriso do homem que plastificava documentos, no cimo de uma avenida.

Tudo isto lhe parecia extraordinário.

Via que o sorriso do funcionário das finanças estava a crédito no dentista e que a colega dele há muito que esqueceu a cor do seu cabelo. Via os ombros resignados dos funcionários noutra repartição pública, e sabia que o tempo que ia ali gastar tinha que lhe chegar, e, de facto, verificava que quando esse tempo acabava lhe tinha chegado. Via que o tempo lhe era sempre útil. E já não parecia que o gastava, como ao dinheiro. Via que essa ligação do tempo ao dinheiro é responsável pelo declínio das coisas humanas. Pelo menos das coisas humanas que lhe interessam a ela, e

Fechava os olhos e via que lhe aconteciam coisas extraordinárias nesses dias. Via que caminhava em direcção ao centro da vida, tanto pelo ritmo cardíaco acelerado e pela respiração apressada, como pela suavidade desses ritmos. Nesses dias, abrir e fechar os olhos na constância de um sorriso parecia-lhe a única coisa extraordinária de toda a sua existência. E era-o, de facto: não tinha que se sentar e escrever para pensar sobre isso. Não tinha que correr para acompanhar o mais veloz dos pensamentos. Não tinha que sonhar para ter o que queria. Não tinha que nada: Pensar é estar aqui, correr é estar aqui, sonhar é estar aqui. Via isto, enquanto existia. E existir, por esses dias, era uma coisa extraordinária.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Domingo de Páscoa


Regresso, hoje, à minha casa-infância. Faço-o sempre que a vida me atropela a exactidão dos dias e dos sentidos. Sempre que me perco na errância das coisas que não são minhas. Sempre que o calendário interna, na Primavera, a palavra domingo, a palavra Páscoa.

É domingo na minha memória. Um intenso domingo de Páscoa da minha infância.

Visto-me de branco e ponho flores no cabelo. A minha mãe sorri mais do que nos outros dias. Os móveis da casa envaidecem-se com naperons e doces. O meu pai alinha as gravatas sobre a cama e escolhe sempre a mesma. A minha mãe continua a sorrir. O senhor abade mostra-me o significado da palavra “elegância”, sentado na burra do Zé da Mata (que afinal era uma linda égua). O senhor abade ensina-me o significado da palavra “beleza” – não conheço ninguém tão velho como ele, ninguém que sorria tanto como ele (nem a minha mãe num domingo de Páscoa), ninguém que me segure o queixo com mãos tão delicadas, ninguém que ponha no rosto cansado um tamanho lençol de beleza. O senhor abade cheira a hóstias. Todas as casas cheiram a hóstias no domingo de Páscoa, dizem-me que é a naftalina, mas eu não acredito. Para mim, todas as casas cheiram a hóstias, no domingo de Páscoa e há algumas que cheiram a hóstias o ano todo. Há flores amarelas nos valados e outras brancas, que eram para ser lírios, mas não cresceram tudo. As flores cheiram a flores pequeninas, quando se misturam, à entrada das casas, com mostrastes. As crianças correm a encher as casas dos vizinhos, os rebuçados pulam-lhes nas algibeiras e intumescem-lhes as bocas, onde cai a cruz, lavada em perfume de rosas.

Se forem dez horas já me dói a barriga, mas não digo nada. Pelas onze horas, a minha avó percebe. Já posso chorar devagar. As mãos da minha avó hão-de cair-me sobre o ventre inchado e desenhar movimentos circulares, que aliviam tudo, até a sua voz repreensiva. Pelo meio-dia o fogo estala no ar e eu finjo não ter medo, e, a essa hora exacta, o meu avô arrasta para o rosto o que a memória lhe garante ser um sorriso. O soalho estremece debaixo dos pés irrequietos da pequenada e um dos pratos da baixela nova de há 40 anos, estala pela quadragésima vez, mas não parte.

Estamos todos à mesa da minha infância. A mesa a que regresso sempre. A mesa que nunca abandonei. É domingo de Páscoa na minha memória, a memória que nunca me abandonou e que conserva todos os que amo. Que conserva tudo o que sou.

terça-feira, 23 de março de 2010

Pão pão, cage cage

Tudo parece fácil quando tu existes e sais do quarto antes de mim, a exalar cheiros do sono, sem fazer barulho. Ou quando a água cai sobre o teu corpo e eu imagino que escorro com ela. Tudo parece simples quando chegas e és só tu, embora eu me some a ti. Tudo é engenhosamente claro quando sorris e eu percebo que dicionário algum explica melhor o que é o sorriso.
Nada consegue ser tão repetitivo e (ainda assim) tão inesperado como partir e chegar. Nada é tão perfeito como esses dois momentos que nos põem tristes e alegres sem mais nada. É geralmente aí que sou feliz: na imperfeição de um abraço que tão depressa se forma como se desfaz. O tempo desse abraço é o meu tempo. Se mo tiram deixo de fazer sentido. Ando aqui a coleccionar esses momentos, que muitos julgarão como pontes para o que é maior. Eu julgo que nada há de mais verdadeiro do que os incorruptíveis momentos dos abraços. Partir e chegar, atamarelada num abraço, é o que me dá continuidade.
Um dia, tu deixas de partir e de chegar e o que é fácil, simples e claro, toma progressivamente o seu sentido inverso. A partir desse dia, tu existes, mas és uma multidão a sair do nosso quarto, da nossa cama, sem contar com a multidão que eu também lá arrumei entre as dobras dos lençóis e alinhei nas primeiras rugas do rosto. E quando sinto a água cair do chuveiro, só sinto a água a cair do chuveiro. Não espero que venhas beijar-me na despedida. Já nem vislumbro a despedida. E quando a chave entra na fechadura da porta de entrada, só sinto a chave a entrar na fechadura da porta da entrada: uma, duas voltas e (acto contínuo) passos arrastados que, de tão pesados, parecem vazios.
Não sei quando deixo de te sentir partir e chegar. Sei que a palavra sorriso se esconde num léxico indecifrável. Ninguém sabe quando acontece, porque entretanto, fomo-nos deixando estar, como pássaros dentro de gaiolas, a ver a luz por entre traves. E deixamo-nos estar porque, assim, na fímbria de um quotidiano inventado por outros, tudo nos parece impossível, doloroso, mas lógico, como na expressão sombriamente dúbia : pão pão, queijo queijo. Escolha muito infeliz de pares: às vezes, pão não há e queijo também não. Às vezes, nas relações, nem se chega nem se parte e tudo me soa mais ou menos a isto: bird bird, cage cage.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Um homem de respeito

Ao arranque de uma lâmpada económica, o espelho até lhe poderia mentir, no instante em que o rosto branco de espuma da barba espera imóvel pelo varrer prudente de uma lâmina.

Todas as manhãs sentia que se desfazia do rosto.

Todas as manhãs escalpelizava a alma. Ou pelo menos, nas manhãs em que o exercício do sorriso o diferenciava dos outros animais. De resto, o que lhe ficava a pender no dia, desse momento, era um movimento e um som: a gillette azul a dar uma exacta cambalhota e a cair no fundo de um saco de plástico branco.

Ao sair de casa, beija a esposa, a quem diariamente vai subtraindo elegância. Às vezes, leva o filho mais novo à escola e fica ao portão à espera que ele entre. Por estes dias acompanha-o mais, porque lhe fica em caminho, mas sobretudo, porque isso lhe dá um certo charme, e a educadora do filho já lhe sorri por cima do ombro. É bonita. E há dois dias lançou-lhe uma dança de dedos com a mão direita. Depois desse gesto, há vários momentos do seu dia que não têm som nenhum. Só o silêncio rasgado por essa imagem de dedos que balançam.

Num misto de repulsa e inveja ouve os relatos dos seus colegas _ homens a sério_ que se fazem respeitar pelas iniciais do nome gravado nos botões dos punhos das camisas, pela leitura de uma crónica de bola e pelo número divulgado de amantes. Por muito que tente, não consegue alinhar numa ordem de importância cada um desses atributos, que fazem desses homens, homens de respeito.

A ele ninguém o respeita. Ninguém o olha com admiração. É tímido, não gosta de futebol e nunca fala das suas aventuras amorosas. É porque não as tem, mas isso ninguém sabe. Embora não o admita, gosta de os ouvir enumerar os seus relatos mais fantasistas. Sempre considerou suspeita esta demora no exercício colectivo de urinol. E enquanto as vozes deles se entusiasmam num chorrilho de disparates e as braguilhas se lhes fingem pequenas, ele lava as mãos e, ao secá-las, o barulho insuportável do secador abafa-lhes, por instantes, o deboche. Olha-se ao espelho uma última vez. O som da gillette volta a cair num saco branco, os dedos da professora do filho a prometerem-lhe que um dia, não muito distante, será um homem de respeito, como aqueles, e será nesse santuário de bobos que se afirmará.

Antes de sair ainda olha para trás: continuam todos alinhados em frente aos respectivos urinóis, abanam-se grotescamente, como cães à chuva. Depois, olha para o espelho. Da sua figura destacam-se as mãos: estão limpas. Ao passá-las pelo rosto sentiu que se refazia. O telefone tocou. No pequeno ecrã, a palavra amor piscava num fundo verde. Atendeu sem dizer palavra. A voz do outro lado anunciou simplesmente: estamos em casa. E tudo nesta frase lhe pareceu claro e digno de respeito.

Nessa noite, abriu a gaveta onde guardava os botões de punho, que nunca usou, e lançou-os ao lixo. Deste gesto não ouviu qualquer som. Não terá dele qualquer eco.