Uma janela, a palavra "saudade" repetida, uma frase simples sobre a vontade de amar.Uma imagem completa. Pena não ser eu essa janela, não ser eu essa saudade, não ser eu esse amor. Posso apenas fazer-me parede e manchar-me de palavras boas ou más, tanto faz...
sábado, 5 de dezembro de 2009
Olhá bulha!
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Remodelação arquitectónica nos Alpes suíços
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Revisão recente a um amor fracassado
Nos dias em que não sinto dores no tornozelo
Lembro-me daquele rapaz e da minha mocidade
E de tantos momento para mim de zelo
E, para a minha mãe, pura leviandade!
Nos dias em que a artrose não me ataca
E me leva à cama ou me põe numa maca
É que me lembro daquele mancebo
De mãos ásperas e braços fortes
A medir-me as ancas, a gabar-me o porte
A tirar-me da cara o palminho que deus me deu
E a pôr-me no corpo, outro palminho bem seu.
Só nos dias em que a vesícula parece rebentar
É que me vem à cabeça aquele peito de pedra
Aquele moço de vigor e de saúde que medra
Aquele cortejar, adocicando-me a bílis
Uma espécie de selo que me dava forma
Um ex-líbris que o passado adorna
E foi antes, muito antes
Do reumatismo, das artroses ou das vesículas biliares
Que um dia o vi a ir pelos ares.
Lembro-me bem de como fugia
Qual acrofóbico a subir para as nuvens
De olhos fechados e sem se voltar
Segurando a mão de outra, todo contente
E eu feita em lágrimas e espasmos de dor
Néscia na vida, ignorando o amor
Julgava o corpo apenas doente.
Enrolando dias, desfiando histórias
A vida cresceu como um novelo
E num baile de boas e más memórias
Voltam-me as dores no tornozelo
Ocorre-me isto (e não é que goste):
Partir corações e andar de avião
Sempre se fez por meio tostão
Que fará agora, com tanta Low Cost!...
Poema rima com edema
Era domingo e abri o jornal
Procurei notícias
acto contínuo, nada cuidado
Pouco é tratado em Portugal.
Títulos amarelos a imitarem o sol
Alimentam-me a vista com colesterol
De página para página o corpo transforma-se
O peso não muda (vive na inércia)
É mesmo a massa de suposta constância
que altera a matéria em abundância.
Revolvo as páginas quase à porfia
A ver o que muda de dia p’ra dia
A lei não existe, o direito é marreco
A ignorância grassa de beco p’ra beco
A páginas tantas, lê-se uma prece
A este país que ainda amanhece
Mas logo um céptico ilude a matéria
E diz que se trata de doença venérea
O contágio alastra de forma imparável
E o céptico tem uma ideia que diz formidável:
Propõe um concurso de textos sem temas
e um mau discurso, cheio de edemas
Incho de ideias que não sei explicar
Arde-me a testa, tremem-me as mãos
E não consigo parar de rimar
Fecho o jornal, amarfanho o céptico
Meto à boca um antipirético.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Feliz aniversário, Vítor!
Faz hoje 40 anos.
É o que me dizem. Sei que não se trata de um boato, porque quem mo diz é a minha mãe, e entre nós não há espaço para rumores: tudo é directo como a descendência.
Há 40 anos (contou-me ainda há pouco a minha mãe) a eira estava tão cheia de milho como ela estava cheia de vida. A eira e o ventre de minha mãe tinham a missão de se esvaziar porque estava marcado nas nuvens que, a seguir, choveria. E a seguir, choveu.
São três acontecimentos desse dia 29 de Outubro de 1969 que estão bem presentes na memória da minha mãe (quando ela os enumera eu vejo a sucessão de imagens, como no cinema, e penso, com agravo, que não consigo ordenar o meu dia de ontem): o canastro encheu-se de espigas secas, a chuva caiu, como em tantos outros dias de Outono, e o meu irmão nasceu.
Há 40 anos eu sabia tanto como aquilo que se sabia de mim: nada.
Um ano depois, acendeu-se uma vela por cima de um bolo de laranja, o meu irmão de um ano soprou-lhe, empurrado pela minha irmã de quase dois anos.
(Na altura ser irmão e irmã era querer ter o mesmo espaço).
Não sei se havia espigas na eira, nem se choveu nesse dia, mas no ventre de minha mãe havia a esperança de outro irmão para os meus dois irmãos.
Há 39 anos eu esperava tanto como aquilo que se esperava de mim:nada.
Dois anos depois, suponho eu que, se entre a troca de fraldas, as colheradas de papa levadas a bocas alternadas dos três irmãos, a minha mãe teve tempo para cozinhar um bolo de laranja, os dois rapazes devem ter soprado às velas do bolo a uma só vez, vigiados de trás pela mana mais velha. Consigo imaginar que, neste quadro que câmara alguma registou, estes irmãos já percebiam que se tinham uns aos outros e que o mesmo espaço chegava para todos.
Há 38 anos eu tinha tanto como aquilo que se tinha de mim: nada.
Três anos depois (continuo a supor), a minha mãe acordou e olhou-se ao espelho. Estava magra e cansada, mas sorria, como a vida lhe ensinou que se fazia. Sorria como nunca desaprendeu. Sorria como ficou registado numa foto a preto e branco tirada uns tempos mais tarde. Sorria como a vejo fazer todos os dias (mesmo nos dias em que me esqueço de olhar para ela).
Nesse dia, ela e o meu pai saíram para o campo. (Devia ser mesmo muito cedo! Ainda as crianças não se ouviam).
Há 37 anos eu sentia tanto quanto o que se sentia por mim: nada.
Quatro anos mais tarde, a minha mãe era finalmente minha, o meu pai era finalmente meu, a minha irmã mais velha era a minha irmã mais velha, o meu irmão do meio era o meu irmão do meio e o meu irmão mais velho, olhava para mim entre quatro velas mal amanhadas em cima do bolo de laranja que a minha avó tinha preparado, minutos antes de me puxar para a luz.
Há 36 anos eu já era alguém, mas não tinha nome.
Por muito que tente meter o nariz nesse momento (que a minha mãe me descreve a rebentar de orgulho) das espigas que recolhia da eira para o canastro, no dia em que o meu irmão nasceu sem enfermeira, sem parteira e quase sem esforço, é-me impossível senti-lo. Mas deste outro dia em que eu já era alguém e todos pensavam que eu ainda não tinha nome, sei que, ao soprar as velas do bolo, sem ninguém o notar, o meu irmão mais velho fechou os olhos, encolheu os ombros e muito baixinho suspirou isto: raio de coincidência! Três dias mais tarde, mudaram-me o nome.
Faz hoje 40 anos não se sabia que esta coincidência se daria. Faz hoje 40 anos ninguém na minha família sabia o que isso era.
Foi exactamente há 36 anos que eu comecei a coincidir com a vida, onde muita gente já estava. Por uma feliz coincidência (e algum engenho dos nossos pais) também já cá estava o Vítor.