Uma janela, a palavra "saudade" repetida, uma frase simples sobre a vontade de amar.Uma imagem completa. Pena não ser eu essa janela, não ser eu essa saudade, não ser eu esse amor. Posso apenas fazer-me parede e manchar-me de palavras boas ou más, tanto faz...
É o que me dizem. Sei que não se trata de um boato, porque quem mo diz é a minha mãe, e entre nós não há espaço para rumores: tudo é directo como a descendência.
Há 40 anos (contou-me ainda há pouco a minha mãe) a eira estava tão cheia de milho como ela estava cheia de vida. A eira e o ventre de minha mãe tinham a missão de se esvaziar porque estava marcado nas nuvens que, a seguir, choveria. E a seguir, choveu.
São três acontecimentos desse dia 29 de Outubro de 1969 que estão bem presentes na memória da minha mãe (quando ela os enumera eu vejo a sucessão de imagens, como no cinema, e penso, com agravo, que não consigo ordenar o meu dia de ontem): o canastro encheu-se de espigas secas, a chuva caiu, como em tantos outros dias de Outono, e o meu irmão nasceu.
Há 40 anos eu sabia tanto como aquilo que se sabia de mim: nada.
Um ano depois, acendeu-se uma vela por cima de um bolo de laranja, o meu irmão de um ano soprou-lhe, empurrado pela minha irmã de quase dois anos.
(Na altura ser irmão e irmã era querer ter o mesmo espaço).
Não sei se havia espigas na eira, nem se choveu nesse dia, mas no ventre de minha mãe havia a esperança de outro irmão para os meus dois irmãos.
Há 39 anos eu esperava tanto como aquilo que se esperava de mim:nada.
Dois anos depois, suponho eu que, se entre a troca de fraldas, as colheradas de papa levadas a bocas alternadas dos três irmãos, a minha mãe teve tempo para cozinhar um bolo de laranja, os dois rapazes devem ter soprado às velas do bolo a uma só vez, vigiados de trás pela mana mais velha. Consigo imaginar que, neste quadro que câmara alguma registou, estes irmãos já percebiam que se tinham uns aos outros e que o mesmo espaço chegava para todos.
Há 38 anos eu tinha tanto como aquilo que se tinha de mim: nada.
Três anos depois (continuo a supor), a minha mãe acordou e olhou-se ao espelho. Estava magra e cansada, mas sorria, como a vida lhe ensinou que se fazia. Sorria como nunca desaprendeu. Sorria como ficou registado numa foto a preto e branco tirada uns tempos mais tarde. Sorria como a vejo fazer todos os dias (mesmo nos dias em que me esqueço de olhar para ela).
Nesse dia, ela e o meu pai saíram para o campo. (Devia ser mesmo muito cedo! Ainda as crianças não se ouviam).
Há 37 anos eu sentia tanto quanto o que se sentia por mim: nada.
Quatro anos mais tarde, a minha mãe era finalmente minha, o meu pai era finalmente meu, a minha irmã mais velha era a minha irmã mais velha, o meu irmão do meio era o meu irmão do meio e o meu irmão mais velho, olhava para mim entre quatro velas mal amanhadas em cima do bolo de laranja que a minha avó tinha preparado, minutos antes de me puxar para a luz.
Há 36 anos eu já era alguém, mas não tinha nome.
Por muito que tente meter o nariz nesse momento (que a minha mãe me descreve a rebentar de orgulho) das espigas que recolhia da eira para o canastro, no dia em que o meu irmão nasceu sem enfermeira, sem parteira e quase sem esforço, é-me impossível senti-lo. Mas deste outro dia em que eu já era alguém e todos pensavam que eu ainda não tinha nome, sei que, ao soprar as velas do bolo, sem ninguém o notar, o meu irmão mais velho fechou os olhos, encolheu os ombros e muito baixinho suspirou isto: raio de coincidência! Três dias mais tarde, mudaram-me o nome.
Faz hoje 40 anos não se sabia que esta coincidência se daria. Faz hoje 40 anos ninguém na minha família sabia o que isso era.
Foi exactamente há 36 anos que eu comecei a coincidir com a vida, onde muita gente já estava. Por uma feliz coincidência (e algum engenho dos nossos pais) também já cá estava o Vítor.
Ao lado, numa banca de cozinha, a caneca de leite quente espera que ela lhe deposite o pão velho de dois dias. A lareira a sussurrar rancores, que espalha pela cozinha toda. O pão cai e levanta-se molhado, pesado, para dentro e para fora da caneca de barro esmurrada. O lume por companhia, vigia isto à distância. E ela ganha a ilusão do pensamento. Ganha a ilusão da partilha.
De pé, encostada à banca, vai processando esse ritual simples de despedir a rotina da fome. A labareda a prometer que dura. Antes do Outono tudo é silêncio. É o que ela pensa, enquanto, come o seu pão ensopado de leite quente, e conversa com o lume, esse interlocutor de conversas crípticas e de voz apaziguadora. Quem a visse assim, neste cenário que recebe o frio, julgá-la-ia triste. Mas não. Sente-se vitoriosa e quente. Sente-se parte da labareda: sabe que as histórias que lhe conta em segredo a alimentam tanto como as achas de videira rachada e seca, que a poda lhe ofereceu.
Um telemóvel impacienta-se dentro da bolsa, em cima de mesa. O pão ensopado de leite pára, por segundos, a meio caminho da caneca e da boca. O telemóvel não se cala. O pão chega à boca, como nas vezes anteriores, sem dúvidas de que vai perder peso.
O telefone cala-se.
É sexta-feira, acabaram-se vários dias nos últimos minutos. Não tem planos para amanhã. Nem para hoje. Nunca faz planos. Aproxima-se da lareira, oferece-lhe mais uma acha. Senta-se, sabendo que numa cidade, não muito longe dali, há gente impaciente numa fila de trânsito. Gente que faz planos todos os dias.
Adormece com o abanico na mão e o lume por companhia.
Errata: onde antes se leu "axa", deve ler-se "acha", porque o Camilo acha e eu estou de acordo. A ortografia é um feixe de acordos, afinal. Fica oerro assumido. Para a próxima, escrevo "canhota", como me ensinaram a dizer:)
Cheguei a Portugal há mais de um mês e desde essa data, tenho tido imensas sugestões de espírito para escrever, mas a verdade é que me falta tema. Verifico com muito agrado que a chuva tem sofrido do mesmo problema de inércia que eu. Assim, deliciada com o pedacinho de Verão que me foi reservado, penso que tal como eu não tenho sentido falta nenhuma da chuva, também ninguém terá sentido com pesar a minha ausência. Mas lá vem um dia em que a chuva cai, leva em enxurradas aquilo que não queremos e deixa limpa a face essencial do que aprendemos.
É verdade que o tema metereológico não é de grande serventia aos corações que pulam ao ritmo de metáforas e que se pelam por um grande aforismo ou uma rima básica. Não é menos verdade que só se fala do tempo, quando outros assuntos escasseiam ou quando entramos num elevador que sobe mais do que uns três andares, e ainda assim, tem que ser o elevador do prédio onde se mora.
Será a homonímia de algumas palavras lançada ao acaso no nosso léxico? Assim, pergunto: haverá entre a palavra “tempo” e a palavra “tempo” uma união de significado, para além do seu grafismo e da sua fonia? Quando eu disse “tempo”, da primeira vez, a que “tempo” me referia? Quem pensou no tempo atmosférico e quem pensou no tempo cronológico? E eu, em que tempo terei pensado? Como se compara o tempo com o tempo, e como se separa?
Eu gosto de Estações. Acho que foi com o tempo que faz em cada Estação que eu fui aprendendo e entendendo a passagem do tempo. Acho por isso que há uma enorme relação semântica entre as duas palavras. Mas provavelmente, essa relação existe para mim e para as pessoas que, como eu, vivem demarcadamente num dos hemisférios… Para quem mora em regiões do mundo com apenas duas Estações, suponho que o tempo leve mais tempo a passar. Pela experiência que tenho de uma breve passagem por uma região dessas, sinto-me muito tentada a acreditar que sim.
E pronto, era isto. Não tinha nada para dizer e pus-me a falar do tempo. Tudo normal, portanto, no Hemisfério Norte. Mas entretanto, reparei no seguinte:
Ontem choveu. Não sei se mais alguém deu por isso, mas ontem choveu muito! Choveu tanto que eu vi o estado do meu coração: pareceu-me escalavrado e atribuí isso à falta de pluviosidade. Mas não é por estar escalavrado que um coração deixa de bater. Também não é por estar calor que o Outono deixa de acontecer. O dia de hoje, por exemplo, cheirou muito a castanhas assadas.