sexta-feira, 23 de outubro de 2009

o lume por companhia



O lume por companhia.

Ao lado, numa banca de cozinha, a caneca de leite quente espera que ela lhe deposite o pão velho de dois dias. A lareira a sussurrar rancores, que espalha pela cozinha toda. O pão cai e levanta-se molhado, pesado, para dentro e para fora da caneca de barro esmurrada. O lume por companhia, vigia isto à distância. E ela ganha a ilusão do pensamento. Ganha a ilusão da partilha.

De pé, encostada à banca, vai processando esse ritual simples de despedir a rotina da fome. A labareda a prometer que dura. Antes do Outono tudo é silêncio. É o que ela pensa, enquanto, come o seu pão ensopado de leite quente, e conversa com o lume, esse interlocutor de conversas crípticas e de voz apaziguadora. Quem a visse assim, neste cenário que recebe o frio, julgá-la-ia triste. Mas não. Sente-se vitoriosa e quente. Sente-se parte da labareda: sabe que as histórias que lhe conta em segredo a alimentam tanto como as achas de videira rachada e seca, que a poda lhe ofereceu.

Um telemóvel impacienta-se dentro da bolsa, em cima de mesa. O pão ensopado de leite pára, por segundos, a meio caminho da caneca e da boca. O telemóvel não se cala. O pão chega à boca, como nas vezes anteriores, sem dúvidas de que vai perder peso.

O telefone cala-se.

É sexta-feira, acabaram-se vários dias nos últimos minutos. Não tem planos para amanhã. Nem para hoje. Nunca faz planos. Aproxima-se da lareira, oferece-lhe mais uma acha. Senta-se, sabendo que numa cidade, não muito longe dali, há gente impaciente numa fila de trânsito. Gente que faz planos todos os dias.

Adormece com o abanico na mão e o lume por companhia.


Errata: onde antes se leu "axa", deve ler-se "acha", porque o Camilo acha e eu estou de acordo. A ortografia é um feixe de acordos, afinal. Fica o erro assumido. Para a próxima, escrevo "canhota", como me ensinaram a dizer:)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

O tempo passa e, às vezes, também chove…


Cheguei a Portugal há mais de um mês e desde essa data, tenho tido imensas sugestões de espírito para escrever, mas a verdade é que me falta tema. Verifico com muito agrado que a chuva tem sofrido do mesmo problema de inércia que eu. Assim, deliciada com o pedacinho de Verão que me foi reservado, penso que tal como eu não tenho sentido falta nenhuma da chuva, também ninguém terá sentido com pesar a minha ausência. Mas lá vem um dia em que a chuva cai, leva em enxurradas aquilo que não queremos e deixa limpa a face essencial do que aprendemos.

É verdade que o tema metereológico não é de grande serventia aos corações que pulam ao ritmo de metáforas e que se pelam por um grande aforismo ou uma rima básica. Não é menos verdade que só se fala do tempo, quando outros assuntos escasseiam ou quando entramos num elevador que sobe mais do que uns três andares, e ainda assim, tem que ser o elevador do prédio onde se mora.

Será a homonímia de algumas palavras lançada ao acaso no nosso léxico? Assim, pergunto: haverá entre a palavra “tempo” e a palavra “tempo” uma união de significado, para além do seu grafismo e da sua fonia? Quando eu disse “tempo”, da primeira vez, a que “tempo” me referia? Quem pensou no tempo atmosférico e quem pensou no tempo cronológico? E eu, em que tempo terei pensado? Como se compara o tempo com o tempo, e como se separa?

Eu gosto de Estações. Acho que foi com o tempo que faz em cada Estação que eu fui aprendendo e entendendo a passagem do tempo. Acho por isso que há uma enorme relação semântica entre as duas palavras. Mas provavelmente, essa relação existe para mim e para as pessoas que, como eu, vivem demarcadamente num dos hemisférios… Para quem mora em regiões do mundo com apenas duas Estações, suponho que o tempo leve mais tempo a passar. Pela experiência que tenho de uma breve passagem por uma região dessas, sinto-me muito tentada a acreditar que sim.

E pronto, era isto. Não tinha nada para dizer e pus-me a falar do tempo. Tudo normal, portanto, no Hemisfério Norte. Mas entretanto, reparei no seguinte:

Ontem choveu. Não sei se mais alguém deu por isso, mas ontem choveu muito! Choveu tanto que eu vi o estado do meu coração: pareceu-me escalavrado e atribuí isso à falta de pluviosidade. Mas não é por estar escalavrado que um coração deixa de bater. Também não é por estar calor que o Outono deixa de acontecer. O dia de hoje, por exemplo, cheirou muito a castanhas assadas.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A sinopse

Dois amigos, um de longa data (tão longa que quase nos caduca a relação) e outro bem mais recente (e parece-me que bem mais decente também!:) acham que eu deveria apresentar uma sinopse daquelas de encaixe na chamada "badana" dos livros, para o "Fecha a Porta Devagar". Eu bem lhes disse que disso de livros percebo pouco, mas entre negociações e conversações entre mim, o António, a aprovação do Zé e o olhar atento da Sofia chegou-se a este texto, que é da responsabilidade do António, (o primeiro texto com aspas neste blog!) e que a mim me parece que leva marketing na venta:):

"Num pequeno espaço improvisado, numa cidade estranha, há memórias de infância e mensagens misteriosas no computador, que perturbam, e provocam saídas para a rua numa procura absoluta de um eu...
Ela evoca recordações dos dezasseis anos, dos dias da descoberta do amor... o primeiro, o segundo, o terceiro dia (não por essa ordem, porque não há ordem no amor)…Disse-lhe Paulo: – O mundo é vasto, podes ir, Graça... E diria depois: – Fecha a porta devagar!!...Ela encontrou abrigo em Pablo, pai de Pedro, o filho de Ariana... Passou meses sem distinguir entre os sonhos e a realidade. E com Pablo, Graça/Ariana viveu os destroços de um amor que não era o seu..."


nano-nota: Para quem conhece o livro, mas ainda não o leu, o texto da contracapa é apenas um excerto e não uma sinopse, como poderá parecer e terá efectivamente sido divulgado. Fica o pedido de desculpas aos seis leitores e ao outro número incalculável de pessoas bem-intencionadas que tentaram sê-lo.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

M.S.T, esse grande partido!

O M.S.T (podem fazer desta sigla o que quiserem, que eu pouco me importo) é um quase-escritor, que recentemente parece ter editado um quase-romance, onde parece que escreve quase-português como sempre escreveu, pois não está para se sujeitar àquilo que apelidou de forma peremptória e leviana de “acto colonial do Brasil sobre Portugal, com regras não recíprocas”.

O M.S.T, como muita gente que grita horrores sobre o acordo ortográfico, importa-se certamente pouco com o facto de o português ser uma língua viva, saudavelmente viva e que essa saúde vingue do facto de manter, lado a lado durante séculos, tremendas variedades linguísticas, concepções de ortografia absolutamente estapafúrdias, mas conseguindo, ainda assim, ao longo dos tempos, manter um equilíbrio entre a fonética e a etimologia, que só poderá advir de uma reciprocidade tácita (se tivermos em grande conta as palavras de M.S.T. a reciprocidade através de regras e acordos não parece muito plausível) . Estranho é que, com tamanha extensão geográfica e insondáveis discrepâncias culturais, se consiga ainda hoje identificar este idioma em tantos cantos do globo. E, a mim, essa é uma estranheza que me agrada e que me interessa preservar. Aos outros não sei, mas a mim interessa-me.

Se as sucessivas reformas feitas ao português, de um lado e do outro do Atlântico isoladamente ou em conciliação não nos mataram a língua, não há-de ser agora mais esta tentativa de a uniformizar que o vai conseguir, parece-me até que o objectivo é a preservação e não o contrário. Parece-me que outras vontades virão e que as reformas terão obrigatoriamente que se suceder a um ritmo bem mais acelerado do que este a que nos habituámos. Parece-me que não farei esforços desmesurados para escrever segundo as novas regras, porque sei que só o tempo e o uso me deixarão completamente confortável nos novos registos. Gosto de pensar que a língua é um ser vivo, que cresce, que se transforma e que se deixa, às vezes, agarrar por línguas-de-trapo, que a confundem e esmagam, mas que também a rejuvenescem e alimentam. Gosto disto tudo e, à semelhança da maior parte das vozes que se levantam contra o acordo, sou preguiçosa e comodista e não me apetecia agora estar a alterar hábitos de escrita e (pior do que isso!) ter que o fazer com a responsabilidade de quem a ensina e de quem (por irreverência e pouco juízo, certamente) a verga a metáforas e outras vaidades! Sim, de facto, para mim era muito mais cómodo que nada se alterasse. Muito mais aborrecido, também, garanto.

Que fique bem claro o seguinte: eu não quero opinar sobre este acordo ortográfico, até porque, grosso-modo, nem tenho opinião, que isso (é sabido!) é coisa que dá trabalho. O que eu queria era manifestar o meu repúdio por esta declaração do Sr. M.S.T e, já agora aproveito, por todas as outras que ele tenha proferido antes e depois desta, mesmo aquelas que tinham hipóteses de ser interessantes, mas que ele consegue com uma deselegante arrogância (porque há aí uma variante de arrogantes elegantes, a que ele não pertence) destruir. Essa declaração sobre o acordo, de resto, nem sequer foi arrogante, foi apenas leviana e triste. O que vale é que este senhor é um grande partido! (entendei o que considerardes a melhor sugestão de espírito e lede isto com sotaque eclesiástico, a ver se nosso senhor vos guarda e protege de todos os colonialistas futurosjjjjjjj.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

A não-inscrição de Gil



Estou convencida que José Gil, autor do ensaio: “PORTUGAL HOJE, o medo de existir”, considerado pela revista francesa Nouvel Observateur entre os 25 grandes pensadores mundiais (ex aequo com um livre-pensador do Sul do Sudão, dois caçadores recolectores do Burkina Faso e um curdo do Irão, que traduz para birmanês citações de Gil, em jeito de requiem prematuro a Ahmadinejad, e as inscreve em rochas das montanhas de onde nunca saiu e onde quase ninguém entrou); dizia eu, que esse senhor, certamente, não é minhoto, conhece pouco de romarias e nunca se inscreveu numa rusga do S. Bartolomeu. De facto, só assim compreendo que tenha criado essa teoria da “não-inscrição lusa”.

Eu não li o Ensaio todo, mas fui ao S. Bartolomeu (aliás, quem vai ao S. Bartolomeu não tem grande tempo para leituras, porque a ansiedade do momento é tal, que não deixa espaço para a concentração, durante o ano inteiro. Isto não percebe, seguramente, o Sr. Gil: O povo português é um povo com ansiedade de ser alegre! Por isso mesmo é que não é. Isto da tristeza e do fado é stresse e frustração por faltar tempo para alegria, para a folia e para a romaria, senhores filósofos! E o Sr. Gil não saberá disto porque, seguramente, sempre fugiu de romarias, de estádios de futebol cheios e de feiras com bancas a rastos; pensando acautelar-se assim numa atitude sensata para quem desata a dizer coisas sobre o povo português e a seguir as publica e arranca aplausos de todos os sectores e a alguns desvinculados tontos, como são os casos do Vasco Pulido Valente e o meu próprio).

A mim causa-me uma certa espécie que todos os pensadores e filósofos nacionais se enervem tanto com a questão da identidade lusa, se preocupem com uma homogeneidade lusa, promovam a “tugalidade” ao tentarem denegrir-lhe a imagem remexendo nos epítetos bacocos e gastos da “pequenez”, da “inércia”, da “inveja”, e agora (vá-se lá saber porquê!) uma tal de “não-inscrição”, que este senhor Gil inventou.

Eu não sei se este meu tom é irónico, sarcástico ou não-inscrito, ou se simplesmente estou verde de inveja por não ter escrito o que o senhor Gil escreveu. Mas a verdade é que este princípio da não-inscrição (não o princípio em si, que em termos emocionais a mim me parece muito são e livre, mas a forma negativa como ele é posto, exposto e dissecado) parece-me o colmatar de todo o pensamento pessimista que vai enublando os espíritos que se encabeçam como pensantes deste país. E, dá-me, que são esses que contagiam toda uma forma de sentir e estar, por cá; simplesmente porque lhes dá jeito e pouco trabalho escrever sobre os mesmos temas sebastianistas com variações medíocres e até ofensivas… (Sim, que isto da “não-inscrição” equivale mais ou menos a dizer que o “tuga” é pouco inteligente, ameaçando ser estúpido como uma porta).

E o que é que isto tudo tem a ver com o S. Bartolomeu? – Quase nada... Eu é que estive a servir finos numa barraca a todas as gentes da romaria e reparei que a alegria deles, enquanto a festa dura é sempre intensa e duradoura de ano para ano, não revelando qualquer inscrição com o ano transacto… O que me leva a pensar, que se calhar o Sr. Gil (sem saber) tem razão. Pelo menos, em relação aos foliões de Ponte da Barca, ele tem razão: aquela gente, no que toca a fazer a festa, é sempre tábua rasa, reinventa-se sempre! O que eu digo, Sr. Gil, é que era só ver a coisa por um lado mais optimista. Se calhar não lhe fazia mal ir a uma romaria minhota… acho que ainda vai a tempo e sempre não fica aí a definhar de inveja de quem se diverte e mostra cara alegre!

Sim, porque há em Portugal um rosto alegre que merece e deve ser celebrado e onde todos se podem inscrever.

Despeço-me com amizade do “meu querido mês de Agosto” e brindo ao bucolismo, à ruralidade e à romaria minhota com um copinho de verde branco de garrafeira própria.


quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Auf Wiedersehen Berlin

Numa loja de bugigangas da Hermanstrasse um ramo gigante de balões coloridos balança incertezas no ar. Na minha memória, como que por acaso, uma agulha cai no vinil e, certamente numa rotação errada, oiço isto: “99 Luftballons”. Fiz o resto da avenida acompanhada por essa melodia resgatada aos anos 80, cruzei para a Emser e entrei em casa, sempre com esse ritmo por companhia. Esse verso único, ainda cá está a meter-se entre as palavras que quero escrever que nada têm a ver com ar, com balões ou com a Nena, que como anunciava uma revista no quiosque da esquina, já é avó.

“99 Luftballons” – que poderei fazer com este número? – Penso. – O que se faz com 99 balões, senão lançá-los ao ar e formular desejos? A ideia não será original e acho que era mais ou menos isto que dizia a canção.

Mas agora que estou aqui apetece-me voltar à loja e lançar todos os balões ao ar e pensar em cada momento, em cada rosto, em cada gesto, em cada abraço, em cada beijo, em cada palavra aprendida com prazer, em cada garrafa de vinho partilhada com amigos, em cada rua percorrida, em cada parque, em cada bar, em cada sonho partilhado com amigos, em cada grupo de punks de Friedrichein ou de junkies de Kottbusser Tor, em cada manifestação de rua, em cada pessoa-garrafa, em cada vizinho que me cumprimenta com sorrisos, em todos os que não o fazem, em cada telefonema em polaco de um dos vizinhos da frente, em cada gato do lar de gatos do rés-do-chão do meu prédio e na sua felicidade por desconhecerem a ASAE, em cada parede da minha casa e nas janelas sem cortinas e sem persianas, em cada janela sem persianas e sem cortinas dos vizinhos da frente, em cada espectáculo partilhado com amigos, em cada texto que escrevi, em cada livro que li, em cada filme que vi, em cada museu que visitei, em cada viagem que fiz, em cada falafel que comi no libanês, em cada casa de kebab que me enjoa, o que equivale a dizer em cada esquina de Neuköln (que nunca me enjoou), em cada restaurante de Sushi, (principalmente aquele pequenino da Oranianstrasse, em que o japonês escorraça os clientes, quando tem mais do que quatro), em cada Currywurts que me deixou maldisposta, em cada cerveja de trigo, em cada momento de desespero com a burocracia alemã, em alemão; em cada alemão que conheci, em cada turco (principalmente o filho do padeiro, que insiste em contar-me as brincadeiras que faz com as irmãs), em cada persa, em cada israelita, em cada palestiniano e também naquele rapaz de Moçambique; em cada pastor alemão que vi na rua e também no cão d’água do Obama que vi nas notícias da televisão do metro, em todas as notícias parolas e nas outras, que mais valia esquecer; em cada nome de rua que esqueci, em cada momento em que deambulei e me perdi na cidade, em cada frase que ouvi dia a pós dia repetida: “Zurück bleiben bitte”, como num enigma que agora decifro. Enfim, apetece-me pensar em cada aprendizagem que esta cidade me deu, só para ver, se tudo somado, dá 99 ou nove vezes 99, mas com a certeza que essa soma é mais, muito mais do que um número registado num livro de balanços e que tudo o que desejo é não perder a memória desta cidade.

99 Luftballons que me mantenham a levitar e, principalmente, me ajudem a respirar de novo em Berlim. Talvez volte de balão 99 vezes, ou talvez perca a conta das visitas. Certo ou quase certo é que sempre que vir um balão, pensarei em ti, Berlim.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Lady Something and Mister Nothing

Que não, disse-lhe, que não conhecia o artista, que nunca o tinha visto antes. E que sim, que estava a gostar. E estava. Estava a gostar bastante, até.
- Mas os outros são conhecidos? – Insistia ele, enquanto escorregava um pouco mais entre a barra do bar e o meu ombro, e, o suor que o vestia inventava que nessa noite era Verão em Berlim. E eu, que não, que não sabia, que não tinha a certeza.
- E falam todos em Inglês? – Arriscou, ainda, já com os lábios a roçarem-me aquela parte sensível que protege o ouvido, mas que não o bloqueia. E eu, que não, que também havia alemães.
- Não percebe inglês? – Perguntei, só para mudar de posição e evitar-lhe o braço que escorregava pelo balcão e me ensopava as costas.
- Pouco! – Retorquiu com um entusiasmo assustador.
O mestre-de-cerimónias, que era meu conhecido, entrou para apresentar a performer seguinte, falou em Inglês, com sotaque da Bronx e eu ia reagindo ao que ele dizia com risos e palmas. A nova artista entrou e eu não lhe percebi o nome.
- E esta quem é?
- Hmmm… Lady Something. – Respondi com firmeza, depois da hesitação inicial. E ele:
- Ah! É conhecida?
E eu:
- Sim, muito. O Tony (o mestre-de-cerimónias), por exemplo, conhece-a muito bem.
- Quantos foram?
- Perdão?
- Quantos já actuaram até agora?
- Cinco.
- Ah! Estou atrasado, então…
- É normal, são onze da noite e o espectáculo começou às 9.
Calou-se.
A Lady Something era australiana, pelo menos era o que ela dizia num dos seus poemas. Tinha um copo de vinho cheio, quando começou a dizer os textos, mas à medida que falava, o líquido ia-se entornando no palco. Acho que não conseguia equilibrar o microfone numa mão e o copo de vinho na outra. Foi pelo menos o que pensei. Talvez por solidariedade (foi, pelo menos, o que me apeteceu pensar), o copo de cerveja do meu interlocutor, tombou-se ligeiramente sobre mim. Eu reagi com discrição. Ele permaneceu calado. A Lady Something não se calava e ia aumentando o tom de voz de forma não muito agradável, a caixa de sintetizadores começou também a fazer barulho. A voz da Lady Something entrou em distorção e o copo caiu-lhe da mão, escapando-se de se estilhaçar com a agudeza dos decibéis. À minha volta, as pessoas iam, finalmente, desistindo de ter conversas e prendiam-se ao palco e à figura excêntrica de Lady Something, que a essa altura já só berrava esganiçada, o repetido e fastidioso verso:
“I am a poet! Let me be!”
De súbito o silêncio magro, seguido do apoteótico aplauso. O Mister Nothing, ao meu lado, esqueceu-se do copo de cerveja no balcão, pela primeira vez, saltou do banco para aplaudir de pé e gritar “bravo”, entre outras coisas imperceptíveis em alemão.
- Esta mulher é fantástica! Tenho que a procurar no Google! Qual é o nome dela? – Disse-me, cansando, ainda, as mãos no aplauso.
- Lady Something, é muito conhecida! - Respondi embrulhada numa serenidade estranha e desapareci.